
Não pertenço, não, a esta vida de açúcar-amargo e relógio de prender.
Sou um ipê-amarelo-em-pé, mas por dentro já despencado.
A raiz me dói de um tempo que me roubaram não o que passei,
mas o que passaria por mim, se eu fosse ficar.
Eis que a noite vem orvalhada, mãe-das-mãos-frias,
e meu frondoso se despede sem alarde.
Cada flor que cai é um beijo que não tive,
cada pétala no chão uma boca que desaprendi.
Caio suave, porque a dor já me deixou leve.
Caio como quem lembra de ter sido árvore.
A terra me acolhe com seu cheiro de minhoca e princípio.
E eu, que nem cheguei a viver direito,
sinto que morrer é só um modo mais profundo de enraizar.
Lamento, sim lamento a flor que não abriu pro teu olhar,
o galho que não teceu ninho,
o beijo que não selou o ar entre nós dois.
Mas o choro não afoga a semente.
Pois eis o rosiano milagre:
o que me cortaram vira semente no avesso do chão.
E outra vez árvore mais ipê, mais amarelo, mais despencada?
Não: mais firme.
Porque quem canta a própria queda já aprendeu a voar de raiz.
E o beijo que não tive, agora, floresce no teu lábio
sem eu ter boca.
Sem precisar pertencer.
Apenas sendo: folha que o vento reconhece,
luz que a sombra não apaga,
semente que a morte engravida.
E assim, no orvalho da madrugada que não me quer,
eu floresço do meu próprio fim
árvore-verso,
poesia que brota do não-ser
como o amarelo mais fundo que o sol tem.
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