Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

ÁRVORE-DESAMPARADA: LAMENTO DO IPÊ QUE SE DESFOLHA EM MIM


Por: | 12/04/2026


   Não pertenço, não, a esta vida de açúcar-amargo e relógio de prender.

Sou um ipê-amarelo-em-pé, mas por dentro já despencado.

A raiz me dói de um tempo que me roubaram não o que passei,

mas o que passaria por mim, se eu fosse ficar.

Eis que a noite vem orvalhada, mãe-das-mãos-frias,

e meu frondoso se despede sem alarde.

Cada flor que cai é um beijo que não tive,

cada pétala no chão uma boca que desaprendi.

Caio suave, porque a dor já me deixou leve.

Caio como quem lembra de ter sido árvore.

A terra me acolhe com seu cheiro de minhoca e princípio.

E eu, que nem cheguei a viver direito,

sinto que morrer é só um modo mais profundo de enraizar.

Lamento, sim lamento a flor que não abriu pro teu olhar,

o galho que não teceu ninho,

o beijo que não selou o ar entre nós dois.

Mas o choro não afoga a semente.

Pois eis o rosiano milagre:

o que me cortaram vira semente no avesso do chão.

E outra vez árvore mais ipê, mais amarelo, mais despencada?

Não: mais firme.

Porque quem canta a própria queda já aprendeu a voar de raiz.

E o beijo que não tive, agora, floresce no teu lábio 

sem eu ter boca.

Sem precisar pertencer.

Apenas sendo: folha que o vento reconhece,

luz que a sombra não apaga,

semente que a morte engravida.

E assim, no orvalho da madrugada que não me quer,

eu floresço do meu próprio fim 

árvore-verso,

poesia que brota do não-ser

como o amarelo mais fundo que o sol tem.


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