Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

A GERAÇÃO ANESTESIADA: UMA CRÔNICA DA EXISTÊNCIA DOPADA


Por: | 12/04/2026


 É com um misto de perplexidade e desalento que observo a paisagem humana contemporânea. Não é uma constatação de orgulho, mas de um assombro quase psicanalítico, que me vejo como uma exceção consciente, um corpo que pulsa sem a intervenção química que parece ter se tornado a regra, a norma velada de uma existência cada vez mais anestesiada.

 Vivemos a era do silenciamento do sintoma. A dor, antes um sinal, um grito da alma, um convite à introspecção, transformou-se em um erro de sistema, um bug a ser corrigido com a pílula certa. Acordar, dormir, sentir, não sentir, para cada nuance da experiência humana, um fármaco. E os números, frios e implacáveis, apenas corroboram essa distopia silenciosa. No Brasil, o uso de antidepressivos saltou 12,4% entre adultos de 29 a 58 anos em 2025. Uma escalada que, se olharmos para a saúde mental de forma mais ampla, revela um aumento de 18,6% no consumo de medicamentos nos últimos dois anos. Não é um surto de doença, é um surto de medicalização.

     O mercado de trabalho, esse moedor de almas, é um reflexo brutal. Em 2025, a Forbes revelou que 52% dos líderes e 59% dos liderados recorrem a psicofármacos para aplacar o estresse, a ansiedade e o burnout. Não se trata de buscar a cura, mas de manter a engrenagem girando, de suportar o insuportável. A produtividade acima da sanidade, a performance acima da alma. E o sono, esse santuário da psique, também foi invadido. Mais de 11 milhões de brasileiros, o equivalente a 7,6% da população, dependem de medicamentos para dormir. O descanso natural, a entrega ao inconsciente, virou um ato farmacologicamente induzido.

    Essa é a geração que, como bem observou o CDC nos EUA, viu a taxa de adultos em tratamento psiquiátrico subir de 11,7% em 2019 para 14,3% em 2024. Uma geração que, em sua busca por alívio imediato, flerta com o uso "recreativo" de medicamentos, trocando o álcool por pílulas para relaxar, para não sentir o peso da própria existência. A dor de existir, a angústia inerente à condição humana, foi patologizada, transformada em transtorno, em desequilíbrio químico. O luto, o tédio, a simples melancolia, antes parte da tapeçaria da vida, agora são vistos como inimigos a serem combatidos.

    A psicanálise, nesse cenário, emerge como um farol em meio à névoa. Ela nos convida a questionar: o que estamos silenciando? Que verdades incômodas estamos sufocando com doses diárias de esquecimento químico? A vida pulsa, insiste em se manifestar, e a dor é uma de suas mais cruas e honestas expressões. Ao medicalizar cada desconforto, cada desvio da norma de uma felicidade compulsória, estamos nos roubando a oportunidade de nos confrontar com o que somos, com o que nos aflige, com o que nos torna humanos.

    Não é uma questão de julgar quem busca alívio, mas de questionar a cultura que nos empurra para essa busca incessante. A sociedade dopada não é uma sociedade feliz; é uma sociedade que se recusa a sentir, a pensar, a elaborar. É uma sociedade que trocou a profundidade da experiência pela superficialidade do bem-estar fabricado. E, nesse torpor coletivo, perdemos a capacidade de nos indignar, de nos transformar, de viver a vida em sua plenitude, com todas as suas cores, suas sombras e suas dores.




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