
Que tipo de febre é essa que faz o sujeito se olhar no espelho e enxergar um imperador de si mesmo?
Batizei, com a liberdade que só a ironia permite, de Transtorno Radical Usurpante Mental Paleolítico — TRUMP, para facilitar o diagnóstico e não perder a piada. Trata-se de uma síndrome curiosa: o indivíduo acredita que o mundo começou nele, gira em torno dele e, se possível, deve terminar sob sua assinatura em letras garrafais.
Não se trata de ciência médica, mas de observação jornalística com um toque de sarcasmo clínico. O paciente típico apresenta sintomas claros: dificuldade crônica em reconhecer limites, alergia a fatos verificáveis e uma compulsão quase infantil por aplausos — mesmo que sejam produzidos por ecos.
O marco zero dessa epidemia simbólica pode ser localizado na ascensão de Donald Trump ao Olimpo político. Não porque ele tenha inventado o narcisismo — isso vem desde as cavernas, daí o “paleolítico” —, mas porque conseguiu transformá-lo em método, espetáculo e, pior, em modelo exportável.
Trump não governa apenas um país; ele administra uma narrativa. E nessa narrativa, a verdade é um acessório descartável, a dúvida é uma inimiga e o outro — sempre o outro — é culpado por qualquer frustração pessoal ou coletiva. É o triunfo da simplificação brutal: o mundo reduzido a bons e maus, sendo o “bom” invariavelmente aquele que segura o microfone.
O problema é que essa lógica viralizou.
Hoje, não é preciso estar na Casa Branca para desenvolver o transtorno. Ele brota nas redes sociais, nas mesas de bar, nos gabinetes e até nas conversas de família. O cidadão comum passa a se comportar como um pequeno tirano de si mesmo: não escuta, não pondera, não recua. Apenas afirma — com a convicção de quem acredita que opinião é fato e volume é argumento.
O TRUMP, como doença social, produz um efeito colateral devastador: a erosão da realidade compartilhada. Quando cada um cria sua própria verdade e a defende como se fosse uma fronteira nacional, o diálogo deixa de ser ponte e vira trincheira. Seguimos, civilização adentro, carregando uma mentalidade que parece saída de uma fogueira primitiva, onde o mais barulhento define o rumo da tribo. Evoluímos tecnologicamente, mas, em certos aspectos, ainda disputamos espaço com clavas invisíveis.
O mais inquietante é perceber que o transtorno não escolhe ideologia, classe social ou geografia. Ele apenas precisa de palco — e, convenhamos, nunca houve tantos.
Será que ainda reconhecemos os sintomas? Porque, quando o delírio vira norma, o espelho deixa de refletir e passa a aplaudir.
(*) jornalista
Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário