Areia de pote
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Maria Ângela, Zacarias Sitônio e a República de Princesa

Por: Francisco Gil Messias | 17/04/2026

Maria Ângela, Zacarias Sitônio e a República de Princesa


Francisco Gil Messias

gmessias@reitoria.ufpb.br


O que Aldo Lopes faz na ficção, com inegável êxito, a professora Maria Ângela Sitônio Wanderley logrou fazer com a biografia de seu pai Zacarias Sitônio, tabelião, prefeito de Princesa Isabel e deputado estadual, um dos ícones políticos e sociais daquela cidade no século XX, cidade que se tornou praticamente mítica no imaginário dos paraibanos e de outros brasileiros interessados nos singulares acontecimentos que ali se desenrolaram no também mítico ano de 1930.


Para muitos paraibanos, esse ano não terminou, assim como o célebre 1968 de Zuenir Ventura. Daqui a pouco, completará um século e no entanto, para não poucos, parece que foi ontem.  Compreende-se, entretanto. Afinal, muitas famílias perderam pessoas e bens nas escaramuças de um conflito armado que assumiu dimensões inimagináveis em seu início. Mas, como se diz, guerra é guerra, e nas guerras muitos abusos, de todos os lados e de todas as maneiras, são cometidos. E depois, passada a refrega, restam os ressentimentos, como feridas às vezes nunca cicatrizadas, por mais que o tempo faça o seu trabalho balsâmico, através da razão e do olvido. 


Digo isso para situar o leitor, principalmente os das novas gerações, quase sempre pouco informados sobre a nossa história local. Pois como explicar a um jovem contemporâneo o corte que ainda hoje divide muitos coestaduanos em liberais e perrepistas? Não sei a quantas anda o ensino de História da Paraíba nas escolas e universidades, nem o viés pelo qual ela é eventualmente ensinada, pois, sabemos, muito docente tem se tornado nos últimos tempos menos um isento professor e mais um engajado doutrinador ideológico. É um fato. E não adianta ignorá-lo. De qualquer modo, o arrefecimento gradual das paixões mais exaltadas e as pesquisas realizadas por estudiosos mais ou menos equidistantes dos fatos estudados têm contribuído para que os idos de 30 e suas sequelas sejam melhor compreendidos. 


É nessa linha que vejo o valoroso trabalho biográfico da professora Maria Ângela, um minucioso resgate da figura paterna e de seu tempo, realizado com a natural afeição da filha, mas também com a responsabilidade acadêmica da socióloga. Daí o seu livro Este Canto é Todo Seu – Zacarias Sitônio – Seu Lugar, Sua Gente (Editora Ideia, João Pessoa, 2026) constituir mais que uma biografia, logrando alcançar o patamar mais amplo de um estudo histórico-sociológico, que certamente será muito útil para pesquisadores de assuntos correlatos. E quanto a isso, um detalhe logo chamou minha atenção: o fato de a autora se referir à capital paraibana, para onde veio estudar e morar ainda criança, pelo nome que a urbe tomou a partir de 1930, exatamente o do líder dos liberais paraibanos, morto no Recife e maior adversário político do líder princesense José Pereira Lima. Isso já diz muito sobre Maria Ângela e também sobre o seu pai, que igualmente se referia à capital como João Pessoa, sem nenhum problema. É o que se vê no documento de folhas 21 do livro ora comentado. Só isso, esse pequeno detalhe, prova o espírito desarmado de Zacarias Sitônio e de sua biógrafa. Ainda hoje, sabe-se, muitos paraibanos referem-se à capital como Paraíba – e até mesmo Parahyba -, resistindo ao uso da quase centenária denominação. 


E à medida que se avança na leitura, confirma-se esse desarmamento de espírito belicoso, sem que implique, todavia, um centímetro sequer, em renúncia a convicções e posicionamentos, alguns fundados em documentação incontestável, outros em testemunhos de familiares e de contemporâneos da época, amalgamando-se, como é inevitável em toda reconstituição histórica, objetividade e subjetividade, sem falar nos afetos envolvidos, estes com a força que lhes é própria. Quase sempre, mais que os fatos, importam as versões, excluídas, naturalmente, as de má-fé e, dentro do possível, as ostensivamente interessadas. Por aí se vê o tamanho do desafio da biógrafa, filha e acadêmica ao mesmo tempo.         


Vê-se que o envolvimento pessoal e político de Zacarias Sitônio com o coronel José Pereira não podia, de certo modo, ser evitado, já que Dona Hermosa, sua esposa, era sobrinha do líder princesense, criada na casa deste praticamente como filha. Sabemos que os laços sanguíneos costumam se impor, o que é natural. Mas ele soube honrar esse parentesco e também a sua aldeia, a que tanto serviu das mais diversas formas. Sem nenhuma dúvida foi um destacado cidadão e não apenas um coadjuvante, o que por si só já justifica a biografia.


E aqui faço uma observação que julgo necessária: tivesse menos espírito acadêmico, talvez a autora tivesse produzido um livro de interesse apenas familiar, como tantos outros semelhantes. Mas não. O trabalho de Maria Ângela vai além do afeto e além da família, vai até mesmo além de Princesa e de sua mitologia, para tornar-se um rico documento paraibano sobre uma época e uma sociedade, assim como foi, guardadas as proporções, o monumental estudo biográfico de Joaquim Nabuco sobre seu pai, Um estadista do Império. E devido à sua perseguida isenção na feitura do livro, pode-se afirmar também que, como intelectual, ela foi fiel à sua corporação de clérigos, atendendo, dentro do possível, o requisito profissional maior de que fala Julien Benda em seu clássico A traição dos intelectuais, ou seja, a imparcialidade, a objetividade, o não envolvimento emocional e ideológico do autor. 


Sua pesquisa genealógica de suas raízes foi tão minuciosa que chega a lembrar o mineiro Pedro Nava em sua célebre obra memorialística. Vê-se por essa e por outras que árduo e demorado foi o seu trabalho de coleta de informações. E nesse labor a socióloga deu as mãos à historiadora, sempre guiadas, ambas, pela verdade possível nas circunstâncias, essa verdade que, humana, não se pretende absoluta, mas que, nos seus limites, não abre mão de ser honesta.  


Na festiva noite de lançamento do livro, a autora conseguiu reunir representantes das três comunidades nas quais tem dividido sua admirável existência: a da família, a dos princesenses e a da universidade. Estavam lá os Sitônio e os Pereira Lima, os conterrâneos de outras famílias amigas de Princesa e os colegas acadêmicos, principalmente os do CCHLA/UFPB, que ela dirigiu com reconhecido brilho. Uma consagração, sem nenhuma dúvida.


O prefácio da professora Inês Caminha e a apresentação do escritor Aldo Lopes enriqueceram o volume. E na plateia, a presença elegante da professora Nevita Pessoa Franca, sobrinha-neta do presidente João Pessoa, deu um toque de confortadora civilidade ao evento, mostrando que as pessoas podem se entender para além das eventuais diferenças. Este foi – e é –, para mim, mais um dos relevantes serviços que o belo livro de Maria Ângela veio prestar à Paraíba.      


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