Wilson Marinho, 90 anos de honradez
Francisco Gil Messias
gmessias@reitoria.ufpb.br
Noventa anos de vida plena não é para qualquer um. Mesmo nestes dias em que a longevidade tem se expandido a olhos vistos. E mais raro ainda é chegar aos noventa com uma biografia limpa e admirável, sem máculas de qualquer espécie. Aí, sim, é caso para se celebrar efusivamente, não só na família e entre os amigos, mas também na própria comunidade, esta sempre tão carente de exemplos edificantes.
O professor Wilson Guedes Marinho chega agora às nove décadas de existência. E chega bem, graças a Deus e ao seu modo saudável de vida, em que a atividade física e a alimentação controlada exerceram e exercem até hoje um papel importante. Brincando, ele diz que o segredo é um bom cuscuz no café da manhã. E deve estar certo, pois ele mesmo é a prova da verdade dessa afirmação. Mas arrisco supor que o vinho tinto, que tanto aprecia, também tem a sua parte nessa dieta virtuosa. Sem ser um enochato, ele tem sabido, ao longo dos anos, não só informar-se aplicadamente sobre a viticultura, como degustar, sem alardes, os bons produtos dessa arte milenar.
Quem o conhece mais de perto sabe que a palavra moderação é uma das que o definem. Wilson é a moderação em pessoa, sem que isso signifique falta de firmeza nas horas necessárias nem ausência de uma personalidade marcante, capaz de se impor ao respeito e à admiração das pessoas. Silencioso, ele não passa despercebido onde estiver, pois a sua discrição é daquelas que vêm carregadas de autoridade. Não a dos poderes efêmeros e enganosos, mas aquela que decorre da experiência e da vida ilibada. Com os anos, ele foi se tornando entre nós aquilo que se costuma chamar de “reserva moral”, título honroso que não se dá a qualquer um.
Nascido em Sapé, logo cedo veio estudar, trabalhar e viver na capital, onde fez carreira na UFPB e construiu uma reputação respeitabilíssima. Na universidade, foi sempre um de seus melhores quadros, tendo dirigido com muito êxito o Departamento de Administração, o Centro de Ciências Sociais Aplicadas e o então Departamento de Pessoal, hoje Pro-Reitoria de Gestão de Pessoas. Os reitores sabiam que podiam contar com ele para qualquer tarefa, principalmente as mais delicadas e de maior responsabilidade. Íntegro e eficiente, era uma garantia de missão cumprida em qualquer área.
Alcancei-o, quando aluno do curso de Direito, nos anos 1970, como diretor do CCSA, caminhando nos corredores com diligentes ares de quem fiscaliza o bom funcionamento de seu território. Depois, já formado, tive a honra de auxiliá-lo no Departamento de Pessoal, onde, na primeira reunião de trabalho com os servidores, ele já imprimiu a sua marca pessoal afirmando: “Se o DP estiver pegando fogo, não liguem para mim, mas para os bombeiros”. Era bem um exemplo do pragmatismo e da racionalidade do administrador profissional que sempre foi.
Mas ele próprio foi bombeiro em não poucas situações, no trabalho e fora dele. Tranquilo, ponderado e conciliador, não raro atuou na resolução de problemas e na pacificação de conflitos, com a sua palavra equilibrada e clarividente. Ainda hoje é assim, uma espécie de guru para os amigos, alguém a quem se pode recorrer quando se quer ouvir a chamada “voz da experiência”.
Não cultivou ambições nem vaidades. Seguiu o caminho que as circunstâncias e ele próprio, dentro do possível, traçaram para si, e foi colhendo naturalmente os frutos de seu labor e de sua perseverança, fiel às lições de vida dos pais honrados e aos valores que têm regido as famílias de bem através dos séculos, aqui e em todo lugar.
Bom filho, visitava assiduamente a casa paterna. Bom marido e bom pai, foi, por sua vez, o alicerce seguro de uma organizada família, atualmente com os mais novos já na universidade, abrindo caminhos para as gerações que hão de vir. A permanente saudade da companheira Josete é uma presença inafastável e uma inspiração cotidiana. Ela que, com sua doçura, tanto ajudou a tantos, deixando um valioso legado de solidariedade e amor.
Reservado, sem ser inacessível; sério, sem ser sisudo, Wilson é como José Américo e Afonso Arinos de Melo Franco, ou seja, não concede intimidade facilmente. Mas aos que permite proximidade brinda com a mais agradável prosa memorialista, já que é um dos maiores conhecedores da história e dos personagens recentes da velha urbe de Nossa Senhora das Neves. Tão conhecedor dessas coisas de antanho quanto um João de Brito Moura, outro apaixonado pelo passado da aldeia quatrocentona. E com que prazer ele recorda antigas histórias pitorescas de um Oscar de Castro e dos ex-reitores da UFPB que conheceu, por exemplo. Uma gente que ele acompanhou mais ou menos de perto, e também de ouvir falar, sempre atento observador da vida e dos atores da cidade que adotou amorosamente como sua.
De sua vida longeva, mas ainda capaz de muitos frutos, pode-se afirmar que foi e continua sendo bem realizada, em todos os sentidos. Mas não isenta, como a de todo mundo, de reveses e infortúnios. Neste aspecto, pode-se dizer, portanto, que é completa a sua humana experiência, pois ai daqueles que não sorveram, por pouco que tenha sido, o fel da existência.
Do alto da montanha, ele
contempla agora a paisagem de sua vida. E, imagino, dá-se por satisfeito, como Deus ao concluir a criação.
Parabéns, mestre!
Texto a ser publicado no blog Ambiente
de Leitura Carlos Romero em 27 de abril
de 2026, um dia após o aniversário do
homenageado.
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