Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa

Riobaldo soluça face ao tormento da revelação...

Por: | 24/04/2026

Pensamentos Provisórios

Hildeberto Barbosa Filho


Ultimamente andei relendo velhas passagens grifadas no meu exemplar de Grande sertão: veredas, epicentro novelesco de Guimarães Rosa. Encanto e espanto revividos e renovados. Riobaldo é o narrador. Ex jagunço, fazendeiro apaziguado, toma da palavra, para tentar recuperar e compreender as experiências que vivenciou ao longo dos anos. Vivências de guerra e de viagem. A guerra entre os bandos de sertanejos deflagrada no miolo dos campos gerais e a guerra que consubstancia os dilemas interiores da personagem. A viagem dos deslocamentos geográficos e paisagísticos, assim como a viagem feita por dentro da alma. Exterior e interior se fundindo numa dimensão ao mesmo tempo física e metafísica, real e transreal, concreta e simbólica, telúrica e cósmica; mágica, mítica, mística. A leitura desse livro maravilhoso e único buliu comigo e me ensinou a sabedoria da desaprendizagem. O Sertão (e o ser tão!), tão de Tao, caminho, que o enforma em ambiente topográfico e espiritual, transpassa as lindes convencionais do sertão de Afonso Arinos, de Coelho Neto e de Euclides da Cunha. Sertão mais que paisagem, mais que região. Sertão inapreensível, lugar impalpável, idioma plantado nas covas do mistério. Sertão de dentro. Objetivo e subjetivo, emblema cifrado que mescla a língua com o fato, a travessia da palavra com a existência do humano. E as veredas, Senhor? O ver e o “edas”. O ver da visualidade. Novela plástica e visual (“Mire e veja!), mercê de imagens tantas que ladrilham o tecido da linguagem. O “edas” parece nos remeter aos Edas, isto é, aos livros que recolhem a mitologia dos povos nórdicos, conforme engenhosa hipótese do mestre Massaud Moisés. O Sertão é o grande ser da narrativa. Épica complexa, espécie de Ilíada e Odisséia transfiguradas e plena de episódios dramáticos e líricos. A cena da morte de Diadorim em luta com Hermógenes, se possui a densidade do drama, por outro lado, quando Riiobaldo diante do corpo morto, descobre que ele não era ele, era ela, vejo, ali, a página mais pungente do lirismo elegíaco da literatura brasileira. Toda vez que a leio (e nunca me canso dessa empreitada alquímica), faço e refaço a minha catarse, mergulhado nos sentimentos de piedade e horror. Riobaldo soluça face ao tormento da revelação, e eu o acompanho, irmanado com a sua dor e absolutamente refém da tragédia que é dele e é minha. Que sertão está em toda parte. Que ser tão é nossa sina.


FONTE: Facebook - Acesse

Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário