Por: | 27/04/2026
Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
Dois poetas em equilíbrio
A selva escura dos cristais perdidos (Brasília: Gráfica Serafim, 2026), o mais recente livro de poemas de Salomão Souza, goiano, radicado no Distrito Federal, estende, em suas páginas, o intenso tapete da poesia. Poesia tocada pelo sangue das palavras e pelo vigor da atitude. Quem conhece a trajetória do autor, poeta e ensaísta, sabe do elemento essencial que o move no ato de pensar e de criar. Salomão não doura a pílula, mas também não se compraz com a falácia do panfleto. Sua dicção lírica, epigrafada, aqui, por Li Shangyn, bardo chinês do século 19, e por uma sua paráfrase de Dante, enfrenta o chão da realidade cotidiana, sem abdicar, contudo, da pesquisa vocabular e do brilho incontornável das metáforas mais perfeitas. Há um motivo que recorre nesse verso, naquele poema, naquela meditação: o cristal da própria poesia. “Que se partiu, cristal não era. / Que se dissipou, não era poesia”, diz Drummond num de seus textos radicais. Pois bem: a palavra poética de Salomão Souza, em sendo cristal, não se rompe; em sendo poesia medular, não se dissipa. Ao mesmo tempo em que convoca os aspectos subjetivos das experiências existenciais, a reflexão acerca do sentido do poema, o fluxo ordinário das coisas e das sensações, nunca perde o prumo face aos desmazelos e às desigualdades de um mundo social e político de índole autoritária e excludente. Passando ao largo dos modismos experimentais e do solipsismo alienado e arrogante de muitos que se acham “inventivos”, Salomão Souza, com mais esse título de uma obra já consolidada, ratifica o seu canto de poeta engajado com os apelos da vida, naquilo que ela contém de verdade e beleza. Em “Sou um poema”, enuncia, na segunda estrofe, dizendo tudo, com a melhor palavra no melhor lugar possível, conforme a lição de Coleridge:
Não me acasalei com o vírus.
Eu sou um poema.
Quando buscam, mas o pão,
o pó integrado à pedra.
Não a lamúria, o milagre.
×××
Já em outra clave lírica, porém, sob o imperativo da mesma virtualidade estética, leio, com atenção e prazer, os poemas do norte-rio-grandense, Eli de Araújo, reunidos no volume Abracadabras (livrinho de magia), Natal: Sol Negro, 2025. De formação plural e transdisciplinar, o poeta congrega, em sua mathesis, isto é, no seu conjunto de saberes, matérias diversas, campos variados, como letras, matemática, direito, medicina, educação, filosofia e pintura. Sua poesia, portanto, observada aqui, como em outros títulos de sua lavra, reflete o traço erudito e certa modelagem hermética, a exigir, decerto, um equipamento refinado, em âmbito exegético, por parte do leitor. São recorrentes os giros metalinguísticos e muito rica a camada intertextual na moldura dos poemas. A emoção, que subjaz à formulação melódica e imagética, segue a vertente pessoana. Emoção que pensa e que se converte, na mirada crítica do poeta, em equilibrado discurso artístico. Poderia citar alguns poemas, alguns versos, mas me atenho ao irônico e ambivalente texto, “Profissão de fé”, em seu dístico final: “etcetera etcetera e tal / ah meu cordão umbilical”. Para quem não sabe, Eli de Araújo é filho da grande poeta potiguar, Myriam Coeli. O DNA da legítima poesia se renova com o vigor e a competência de sua voz.
(Publicado ontem, 26/04/26, em A União)