Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

POR MIM, PARA MIM


Por: | 29/04/2026

    Há em mim uma mulher feita de abismos e auroras,

uma criatura que aprendeu a bordar claridade

com os fios gastos da noite.

Não me vês inteira quando sorrio 

meu riso é apenas a janela,

a casa verdadeira arde por dentro.

    Trago o peito aberto em lírios brancos,

não como quem se oferece,

mas como quem revela a própria guerra:

cada pétala nasceu de uma ferida

que escolheu perfumar o mundo

em vez de apodrecer na sombra.

  Sou dessas almas que apanham do tempo

e devolvem ao tempo uma canção.

Carrego nos pulsos as marcas

de portas que empurrei sozinha,

de adeuses que me cortaram os dedos,

de silêncios que mastiguei

para não morrer de grito.

     Há um pássaro em mim sem asas,

e ainda assim ele voa.

Voa porque desconhece a derrota,

porque fez do vento imaginação,

porque transformou queda em caminho

e cárcere em horizonte.

     Quantas vezes me quiseram chão,

tapete, espera, moldura,

e eu, secreta e inteira,

crescia raiz embaixo das pedras,

rasgando a dureza do mundo

com a paciência feroz das sementes.

  Não me confundas com delicadeza apenas.

A rosa também traz espinhos

e o mar beija enquanto afoga.

Sou ternura, sim 

mas ternura de quem atravessou incêndios

carregando água nas mãos.

    A poeta que me habita

não escreve versos:

sangra alfabetos.

Cada palavra sua vem úmida de destino,

cheira a terra molhada,

a ventre, a relâmpago,

a infância perdida e resgatada no susto.

   Quando amo, não amo pouco.

Abro janelas no impossível,

acendo velas dentro das ruínas,

faço jardim em desertos alheios.

Meu amor não pede licença:

entra descalço,

cura o que encontra,

e às vezes se fere salvando.

    Sou mulher de carne, de fé, de vertigem.

Tenho cansaços antigos

e esperanças recém-nascidas.

Se tombam meus joelhos,

minha alma permanece de pé.

  E aquele que me ler de verdade

não verá somente uma mulher 

verá um continente.

Um campo de batalhas vencidas em silêncio.

Uma fonte escondida entre pedras.

Um céu insistindo em nascer

mesmo depois da noite.

  Porque há mulheres que vivem.

E há mulheres que, vivendo, criam mundos.

Eu sou dessas:

trago um pássaro sem asas no peito

e mesmo assim

todos os dias

aprendo a voar.

Por mim, para mim.



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