
Sabe aquela sensação de déjà vu que te pega no meio da tarde, como um café requentado? Pois é. O Congresso Nacional, aquela instância misteriosa onde o óbvio demora a chegar e o absurdo faz hora extra, acabou de nos servir mais uma edição do "Brasil, país do futuro sempre adiado". Derrubaram o veto do Lula à tal da dosimetria palavra bonita para um troço feio, ou vice-versa.
E quem ganha? Ora, o cardápio é variado: ex-presidente, generais que achavam que golpe era programa de TV, os vândalos do 8 de janeiro, mas também, de brinde, estupradores, traficantes e feminicidas. É a democracia de balcão: dois pesos, duas medidas, três confusões.
Vamos combinar: o STF vira herói para uns e vilão para outros, mas quando o Legislativo resolve dar uma de "justiceiro social", o que vemos? A velha tática de chamar o Diabo de coitado e vestir o lobo de cordeiro. Porque reduzir pena de quem tentou rasgar a Constituição com a turba ensandecida é como dar desconto para incendiário com o galão de gasolina ainda na mão.
E a filosofia nisso tudo? A filosofia é aquela senhora chata que lembra: justiça sem memória é esquecimento, e anistia sem contrição é deboche. O Brasil adora um "deixa disso", um "passa pano", um "vamos recomeçar do zero" o problema é que o zero já vem com código de barras e parcelamento no cartão.
Eu lhes digo que éramos um país de "cordialmente, porém". Pois hoje somos um país de "beneficia, mas não explica". Derrubam-se vetos, ajustam-se penas, enquanto a indignação se acomoda como um felino preguiçoso no colo da impotência.
E o triste é que, no fim, a lei da dosimetria termina dosando mesmo é a nossa paciência. Porque se a Justiça é cega, no Brasil ela também tem labirintite. E o cidadão honesto fica ali, olhando para o nada, pensando: será que o erro compensa? Pelos vistos, sim. E com desconto progressivo.
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