
Vivemos tempos curiosos. Nunca houve tanta nudez exposta e, paradoxalmente, tanta vergonha vestida. Mostra-se tudo: o prato do almoço, a opinião mal cozida, a alma parcelada em stories de quinze segundos. Mas o essencial continua escondido: a inteligência, a ternura, a capacidade de rir de si mesmo.
Foi então que me lembrei de uma palavra antiga, dessas que entram na sala como uma tia grega excêntrica e perfumada: Anasyrma. No mundo clássico, era o gesto ritual de erguer as vestes e mostrar os genitais ou as nádegas, não por vulgaridade, mas como ato apotropaico isto é, para afastar o mal, o medo, a guerra, a morte e até os maus espíritos. Em resumo: havia épocas em que uma saia levantada tinha mais eficácia simbólica que certos discursos parlamentares.
Conta a mitologia que Baubo, velha irreverente e sábia, fez Deméter rir ao erguer suas roupas num momento de desespero cósmico. E isso não é pouca coisa. Uma deusa devastada pela perda da filha só voltou ao eixo quando alguém lhe ofereceu o remédio mais raro do universo: o riso. Freud passaria séculos tentando explicar em alemão o que uma camponesa grega resolveu em cinco segundos.
O Anasyrma nos ensina algo precioso: às vezes, o sagrado não entra pela porta principal. Vem pela janela da gargalhada. Deus, se existe humor no céu, talvez prefira os irreverentes honestos aos solenes hipócritas. Cristo expulsou vendilhões do templo; hoje talvez expulsasse coaches emocionais e influenciadores de fé patrocinada.
No fundo, o gesto de levantar as vestes era menos obsceno que levantar falsas virtudes. Escandaloso não é o corpo escandaloso é a mentira de gravata, a crueldade maquiada, a mediocridade em cargo de chefia. O corpo sempre foi inocente; quem o condenou foram almas mal resolvidas. Hoje praticamos um anasyrma ao contrário: escondemos a carne e exibimos a vaidade. Cobrimos a pele e mostramos a ignorância em alta definição. Antigamente a nudez espantava demônios; agora certos comentários em rede social os convocam.
Há também uma lição política nisso tudo. O poder teme o riso porque o riso desnuda. Um tirano suporta protestos; o que ele não suporta é virar meme. César aguentaria facadas, mas não um gif. Ditadores caem quando o povo perde o medo e perde o medo, muitas vezes, rindo.
Talvez precisemos recuperar o espírito de Baubo: menos puritanismo histérico, menos pose moral de vitrine, menos escândalo seletivo. Mais verdade crua, mais espontaneidade, mais a coragem de mostrar o ridículo do rei nu ou do eleitor nu, o que às vezes dá no mesmo.
Anasyrma não é pornografia. É filosofia corporal. É o corpo dizendo ao terror: “não me impressiona”. É a carne vencendo o dogma com uma gargalhada ancestral. É a sabedoria de saber que certos monstros desaparecem quando lhes mostramos que não temos mais medo.
No século XXI, talvez não precisemos levantar saias. Bastaria levantar consciências. O problema é que isso dá muito mais trabalho.
Você já conhecia Anasyrma?
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Afrodite Calipígia helenística no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles
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