DR DE CINÉFILOS
João Batista de Brito
O Primeiro de Maio está aí, com direito a feriadão, e a turma está animada. Um fim de semana prolongado não é nada mau pra juntar o pessoal e curtir um programa divertido e que seja também culturalmente interessante.
O amigo mais folgado da turma tem casa de praia, normalmente fechada que, agora, ele abre pra receber todo mundo. São onze ou doze, todos incumbidos de levar uma bebidinha e uma comidinha, suficientes pros três dias. Mas não só isso: livros, violões e filmes também são itens cobrados. A rigor, vai ser assim: sexta-feira de poesia; sábado de música; domingo de cinema.
Com fama de cinéfilos, Ilsa e Charles foram incumbidos de providenciar o filme a ser visto, com a seguinte exigência: que fosse total surpresa.
Ora, manhã de sexta, o casal ainda em casa, malas por fazer, e nada foi decidido sobre o filme a levar. Concordaram apenas que seria um clássico, tinha que ser, e um marcante. Mas qual?
“Casablanca” foi a opção dela. Teria tudo sido fácil se a opção dele não fosse outra, bem diferente: “Cidadão Kane”.
Pois já estavam de partida, arrumando as coisas a levar, e o impasse continuava. Ela alegava que “Casablanca” agradaria à maioria. Ele alegava que não via por que “Cidadão Kane” não agradaria a essa maioria de que ela falava, afinal seriam pessoas apaixonadas por cinema.
Entre uma peça de roupa jogada na mala e outra, entre um par de sandálias empacotado e uma escova de dente catada no banheiro, a discussão continuava.
Ela: Amor, a gente vai ver um filme pra se divertir, pra curtir, e não pra raciocinar. “Casablanca” dá mais certo.
Ele: Pois “Casablanca” me faz refletir tanto quanto “Cidadão Kane”. Não vejo diferença. Aliás, se o critério é diversão, “Casablanca” me puxa pra baixo. O final sempre me deixa macambúzio, com a amada indo embora no avião e Rick sozinho no aeroporto, desaparecendo na tela com aquele delegado cretino.
Ela: E “Cidadão Kane”, que já começa com morte? Não me diga que é alegre a história de um homem que subiu na vida só pra despencar lá de cima, perdendo esposa, negócios, eleições, sei lá o que mais, pra viver com uma mulher que nem ama, só por teimosia, num castelo assombrado, sem amigos nem parentes.
Ele: Acho que você só ´tá vendo os aspectos negativos da vida de Kane...
Ela: E você por acaso não ´tá fazendo o mesmo com os amantes de Casablanca? Entre eles pelo menos houve uma grande história de amor...
Ele: Essa conversa tá meio tola: nenhum dos dois filmes é melhor ou pior por causa dos infortúnios dos personagens.
Ela: Pois é, e a gente volta ao ponto de partida.
Ele: O pior é que ´tá na hora de fechar as malas e o trânsito lá fora não ´tá nada bom.
Ela: O que é que você sugere?
Ele: Um par ou ímpar?
Ela: Ah, não, isso não!
Depois de uma pausa para fechar portas e janelas do apartamento, novas arguições:
Ela: Francamente, eu acho que “Cidadão Kane” é uma escolha meio óbvia, sabe como é, (e falseando a voz para soar prepotente) “o filme mais perfeito já feito, segundo a crítica internacional...”, essas coisas.
Ele: E “Casablanca”, que é o queridinho do público em todos os tempos e lugares? Isso não é obviedade? Acho que o filme mais reprisado em toda a história do cinema...
Ela: É, assim a gente não chega a lugar nenhum.
Ele: Também acho. E a hora ´tá passando.
Ela: Uma saída seria pensar noutro filme...
Ele: Outro filme? E, demorando a digerir a sugestão: tudo bem, e o que seria? Filme não falta...
Ela: Mas nada que se compare a “Casablanca”.
Ele: Nem a “Cidadão Kane”.
Ela: O que ´tou querendo dizer é que, para uma ocasião dessas, encontro de amigos, em data especial...
Ele: Sim, isso mesmo. “Cidadão Kane” resume a história do cinema.
Ela: “Casablanca” resume a história do amor ao cinema.
Ele: Só se a gente fizer o seguinte: bota os dois filmes na mala. Na hora de assistir, a gente pede a opinião da turma toda.
Ela: Ih, isso vai dar zebra. A discussão vai se estender e a sessão vai começar de meia noite. Não, dá certo, não. Além do mais, foi combinado que ia haver o elemento surpresa.
Ele: E aí, o que é que se faz?
Ela, colocando na mala superlotada um par de calcinhas: Continuo achando que devia ser “Casablanca”.
Ele, enfiando no meio das roupas, um tubo de creme de barbear: Continuo achando que devia ser “Cidadão Kane”.
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