
No fim do século XIX, quando a palavra ainda era promessa e não território, o Sionismo caminhava com uma mala leve e um cofre pesado. Leve de chão, pesado de intenção. Havia cartas, congressos, ideias — e havia dinheiro. Não o dinheiro vulgar do balcão, mas o capital paciente das causas longas, aquele que se infiltra na história como quem planta oliveiras.
Entre os nomes que sustentaram esse esforço estava Edmond de Rothschild, financiando colônias onde antes havia apenas mapa e memória. Ao redor dele, instituições como a World Zionist Organization e o Jewish National Fund organizaram não apenas recursos, mas uma visão estratégica: território, povo, legitimidade. A política, nesse caso, foi consequência de um acúmulo — financeiro, diplomático e simbólico.
Quando veio, veio com cálculo. A Declaração Balfour não foi um gesto isolado, mas parte de uma engrenagem maior, onde o Reino Unido redesenhava regiões conforme seus interesses. Mais tarde, a chancela da Organização das Nações Unidas formalizou o que já estava em curso. E, atravessando tudo isso, o Holocausto funcionou como um acelerador moral — encurtando debates, comprimindo o tempo, transformando urgência em decisão.
Assim nasceu o Estado de Israel: não de um único impulso, mas da convergência entre capital, diplomacia e tragédia histórica.
Essa engrenagem — feita de interesses organizados, narrativas mobilizadoras e articulações internacionais — não pertence apenas ao passado nem a uma geografia distante. Ela se repete, com outras roupagens, em diferentes contextos. Inclusive no nosso.
No mundo contemporâneo, influência não chega mais em navios — chega em redes, acordos, alinhamentos ideológicos. E o Brasil, pela sua dimensão e relevância, tornou-se campo de disputa permanente. Interesses externos — sejam estatais, econômicos ou geopolíticos — operam por múltiplas vias: cooperação, pressão, narrativa.
É nesse ponto que a intersecção se torna visível.
No Brasil recente, setores alinhados ao campo pró-Israel — não necessariamente ao sionismo histórico em sua complexidade, mas a uma leitura política contemporânea de Israel — encontraram eco em segmentos da direita nacional. Especialmente no universo do Bolsonarismo, onde o apoio a Israel se mistura a elementos religiosos, geopolíticos e identitários.
Não é uma coincidência simples, nem uma conspiração totalizante. É uma convergência de interesses e narrativas.
De um lado, uma política externa que valoriza alianças estratégicas e simbólicas com Israel. De outro, uma base interna que incorpora esse alinhamento como parte de sua identidade política e religiosa. No meio, decisões concretas que revelam como esses vetores se materializam.
A recente derrubada de vetos presidenciais — como no caso da chamada “dosimetria” — expõe esse mecanismo. Não se trata apenas de um embate técnico ou jurídico. É também a demonstração de força de um Congresso onde coalizões ideológicas, muitas vezes conectadas a agendas internacionais e a pressões internas organizadas, atuam para moldar o resultado político.
Nesse cenário, o bolsonarismo não age isoladamente. Ele funciona como catalisador — amplificando pautas, tensionando instituições, e, por vezes, operando em sintonia com discursos e interesses que ultrapassam as fronteiras nacionais. Ao fazer isso, contribui para um ambiente de instabilidade que fragiliza a previsibilidade econômica e a confiança institucional.
Erosão não se anuncia. Ela se infiltra. Começa na linguagem, avança sobre a confiança, e termina por comprometer decisões estruturais.
O que liga, então, aquele movimento histórico de construção estatal no Oriente Médio a esse momento político brasileiro?
Não é a equivalência — é o método.
A compreensão de que Estados, decisões e rumos nacionais não são apenas fruto da vontade interna, mas também da capacidade de resistir, filtrar e responder a interesses organizados, muitas vezes externos, que encontram aliados dentro de casa.
Porque também nós já fomos — e ainda somos — terreno de disputa.
A diferença é que ainda temos escolha.
Escolher não significa negar o mundo, mas entendê-lo. Significa reconhecer alianças sem se submeter a elas. Significa perceber quando o debate interno deixa de ser apenas nosso — e passa a ecoar vozes que não respondem ao interesse coletivo nacional.
A história da criação de Estados ensina menos sobre quem venceu e mais sobre quem conseguiu decidir por si.
E decidir, no nosso caso, é impedir que o Brasil seja conduzido por vetores que não passam pelo crivo da sua própria soberania — sejam eles externos, sejam eles internalizados por projetos políticos que fragilizam a própria democracia que dizem defender.
Soberania não é isolamento.
É discernimento. Autodeterminação não é palavra de discurso, é prática. Prática diária, tensa, imperfeita — de um povo que se recusa a ser conduzido sem saber por quem, nem para onde.
(*) jornalista
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