Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa

Essa aventura solitária

Por: | 04/05/2026

Letra Lúdica

Hildeberto Barbosa Filho


Essa aventura solitária

Sou um estranho viajante da leitura. Minha geografia literária é vária e vasta.

Ora, estou nas montanhas da Grécia antiga, escutando, atento, Sócrates discutindo com Górgias, orientando Platão e esmiuçando, para os diversos discípulos, os passos sinuosos de sua dialética, centrada na ironia e na maiêutica. Anoto tudo nesse formidável romance dramático que são Os diálogos. Faz tempo que os leio. Para mim, constituem uma Bíblia ao mesmo tempo laica e sagrada. Seus conceitos não se fecham no âmbito lógico do conhecimento pré moldado, uma vez que se deixam abrir, em espiral, para os vales da imaginação, da intuição, da fantasia criadora, como liames mágicos que me conecta com os fluidos da sabedoria.

Ora me tranco num mosteiro da Idade Média, só para mergulhar, entre silencioso e suplicante, na tempestade melódica da Divina comédia. Ter lido Dante foi uma glória na minha vida. Ali, no meu sentir, no meu entender, reside o suprassumo da linguagem poética. Goethe dizia que a poesia é a linguagem do invisível. Pois bem: Dante torna real esse princípio teórico, trazendo, para a cena de seus tercetos de fogo, os avessos ocultos da miséria humana, seus erros e demônios, seu imperecível desamparo, sem deixar de tocar, contudo, com seu ritmo e imagens, a luz sublime das aventuras celestiais.

Ora me atrai a subjetividade da Renascença, e passo longas horas lendo e relendo meu amado Montaigne. Os Ensaios constituem, para mim, uma cartilha fecunda de ensinamentos. Quando me detenho em certos assuntos, por exemplo, livros, mulher, guerra, doença, amor, arte, poesia, morte, descubro, pela lógica vertical do ceticismo, nuances semânticas que nenhuma ciência consegue me dar. Nele, a razão tem limites. A experiência diária e íntima é fonte de saber. Montaigne é tão grande como as distâncias do universo. E melhor: escreve simples e fácil, com a clareza meridiana e iluminada do homem renascentista.

Ora faço parada no século dezenove. Volto aos russos, que são maiores. Gogol, Tolstoi, Tchekhov, Dostoiévski, só para referir os preferidos. Dostoiévski, não tenham dúvida, sempre foi o meu planeta. O remorso, o sentimento de culpa, o mal copulando com o bem, Deus e Diabo fundidos numa metáfora perfeita, saltam de suas páginas e me ajudam a conviver melhor com os meus pecados mortais, com as estepes dolorosas dos meus dias brancos. Flaubert, Baudelaire, Maupassant, os irmãos Goncourt respondem pela grandeza de França. Não devo esquecer, no desfiladeiro desse século, o meu Machado, e sua acidez, seu tédio, sua galhofa, sua melancolia, sua ironia e humor cáusticos e severos.

Ora frequento os modernos, os clássicos modernos, entre poetas e prosadores que também me fizeram a cabeça e inundaram meu coração de júbilo e espanto. Modernos e contemporâneos. Um Kafka, um Rilke, um Pessoa, um Borges, um Rosa, uma Clarice, um Bandeira, um Drummond, um Cortázar, um Gabriel, um Roth, um Lorca, um Coetzee, um Calvino, um Zé Lins, e mais e mais, na lista dos autores e autoras que convivem comigo.

Repito: sou um estranho viajante da leitura. Para mim, ler é respirar, é viver. Mais que viver, é existir. Por isto não consigo conceber o mundo, sem essa aventura solitária que os livros me oferecem.

(Publicado ontem, 03/05/26, em A União)


FONTE: A União - via Facebook - Acesse

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