
Quem são os deuses de barro que erguemos no altar da nossa própria insignificância? Ao longo da vida, somos assaltados por uma procissão de fantasmas: o escritor da moda que vomita obviedades em prosa poética, o músico que transforma o vazio existencial em refrão chiclete, o estilista que nos convence de que vestir o ridículo é o ápice da vanguarda. E, claro, os gurus espirituais, esses charlatães do sagrado, que vendem a paz interior em parcelas no cartão de crédito. Por que nos curvamos? Por que, diante da vastidão aterrorizante da existência, escolhemos o conforto do rebanho e a anestesia da cópia?
Platão, se estivesse vivo e com um smartphone na mão, não precisaria reescrever o Mito da Caverna; ele apenas faria um documentário sobre nós. Estamos todos acorrentados, não em uma gruta úmida, mas em telas de retina, hipnotizados pelas sombras que chamamos de "tendências". A doxa a opinião pública, o senso comum, o achismo barato engoliu a episteme. O conhecimento verdadeiro foi substituído pelo número de curtidas. Nós não pensamos; nós apenas ecoamos. E o mais trágico: ecoamos o que é absolutamente ruim, o kitsch, o medíocre, porque a mediocridade é quentinha. Ela não exige esforço. Ela não exige a dor do parto intelectual.
É aqui que Nietzsche entra com seu martelo, rindo da nossa cara. "Onde está o super-homem?", ele gritaria, vendo-nos rastejar atrás do último influenciador digital que nos ensina a respirar. Nós somos o "último homem", a criatura patética que pisca os olhos e diz: "Nós inventamos a felicidade". Mentira. Nós inventamos a covardia. A moral de rebanho nos convenceu de que a solidão do pensamento próprio é uma doença a ser curada com a integração social. Ter uma ideia original hoje é quase um ato de terrorismo contra a harmonia dos idiotas.
E aí entra a acidez dessa cronista que lhes escreve para traduzir essa tragédia em bom português: nós somos viciados em não ser ninguém. A criação individual foi terceirizada. Você não escolhe sua roupa; o algoritmo escolhe. Você não escolhe sua música; a playlist patrocinada escolhe. Você não escolhe seu deus; o mercado do bem-estar escolhe. Nós nos tornamos uma massa de xerox malfeitas, copiando defeitos, exaltando a ignorância, porque no fundo, temos um pavor paralisante de olhar para dentro e descobrir que a casa está vazia.
A necessidade de seguir, de idolatrar até o lixo, nasce do nosso terror diante da liberdade. A liberdade de pensar dói. Exige romper as correntes, sair da caverna e ter os olhos queimados pelo sol da realidade. Exige pegar o martelo e quebrar os ídolos de porcelana que nossos pais, a mídia e os algoritmos colocaram na nossa estante. Mas quem quer quebrar a estante quando é tão mais fácil tirar uma selfie na frente dela?
A onda coletiva de pensamento não é um acidente; é um projeto de suicídio intelectual em massa. Nós nos matamos um pouco a cada vez que repetimos um jargão, que compramos um livro de autoajuda, que aplaudimos o medíocre só porque todo mundo está aplaudindo. A verdadeira revolução não é política, não é tecnológica. A verdadeira revolução é o silêncio. É a coragem de ficar sozinho no escuro, sem gurus, sem ídolos, sem refrões, e finalmente ouvir a própria voz. Até lá, continuaremos sendo apenas sombras, dançando a música ruim que os outros escolheram para nós.
E você? Já questionou sobre os ídolos?
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