
Ah, a cena se repete, com a monotonia cruel de um disco arranhado na vitrola da história. Mais uma vez, o palco do absurdo se arma, e os atores, sempre os mesmos, trocam de máscaras, mas o roteiro, ah, o roteiro é imutável. Thiago Ávila, o brasileiro, e Saif Abu Keshek, o hispano-palestino, são os protagonistas da vez, arrastados para o proscênio de um tribunal israelense, onde a justiça, essa senhora de olhos vendados, parece ter perdido não só a visão, mas também o olfato e o tato para a realidade.
Flotilha humanitária, dizem. Ajuda aos desvalidos de Gaza, sussurram. Mas para os olhos que veem o mundo através de lentes de segurança nacional e paranoia, isso é subversão, é apoio ao terror, é, pasmem, um crime contra a própria existência. E assim, o tribunal, com a solenidade que só a burocracia do poder consegue ostentar, prorroga a prisão preventiva. Até domingo. Um domingo que se estende ao infinito, um julgamento que se anuncia político, um espetáculo kafkiano onde a culpa precede o crime.
O ativista israelense Itamar Greenberg, com a lucidez que por vezes emerge do próprio ventre da besta, crava a sentença: "O crime: a humanidade." E é isso, não é? A humanidade, essa teimosa insistência em ver o outro, em estender a mão, em desafiar o muro invisível que se ergue entre nós e eles. É a humanidade que se torna o réu, a compaixão que vira evidência incriminatória, a solidariedade que se transfigura em ameaça à ordem estabelecida.
E qual é a ordem estabelecida? A de que alguns podem ter tudo, e outros, nada. A de que a dor de uns é mais digna de lamento que a dor de outros. A de que a liberdade é um privilégio, não um direito. É a ordem que transforma um ato de caridade em um ato de guerra, um barco de suprimentos em uma arma, um ativista em um terrorista. A retórica, essa velha prostituta, se veste de nova, mas o truque é o mesmo: desumanizar para justificar o injustificável.
Thiago Ávila, escrevendo uma carta para a filha da prisão de Shikma, em Ashkelon. A ironia é tão densa que sufoca. Uma prisão conhecida por suas condições, por ser o destino de tantos palestinos, agora abriga um brasileiro, um estrangeiro, um "intruso" que ousou atravessar a linha invisível da indiferença. E a ONU, com sua voz embargada e seus apelos protocolares, pede a libertação. Como se o pedido, por si só, pudesse desatar os nós de uma trama tão antiga quanto a própria civilização.
Mas o pesadelo continua. Não é apenas o pesadelo de Thiago e Saif, presos em celas de concreto e arame farpado. É o pesadelo de todos nós, que assistimos, impotentes ou complacentes, à erosão dos valores mais elementares. É o pesadelo de uma política internacional que se afoga em hipocrisia, onde os direitos humanos são moeda de troca, e a justiça, uma miragem no deserto da geopolítica.
Libertem todos os presos políticos! Libertem a Palestina! Gritos que ecoam no vazio, ou talvez, quem sabe, sementes lançadas ao vento, esperando o dia em que a humanidade, essa réu teimosa, finalmente se absolva e reescreva o roteiro, não com a tinta da opressão, mas com a caligrafia da liberdade. Até lá, o espetáculo do absurdo segue em cartaz, e o pesadelo, meus caros, o pesadelo continua.
**"Liberdade para Thiago Ávila", charge de Carlos Latuff para o #BrasildeFato
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