MÃES CLÁSSICAS
João Batista de Brito
A propósito do segundo domingo de Maio, adianto, aqui, dez filmes que fizeram representação ficcional da figura materna. Como no dito de Coelho Neto (“Ser mãe é padecer no paraíso”), são quase todas figuras sofridas, com mais padecimento que paraíso, mas, seja como for, os filmes são grandes clássicos para serem revistos, nessa ou em qualquer data.
Seguindo a cronologia, começo com a adaptação que o cineasta russo Vsevolod Pudovkin fez, em 1926, do romance homônimo de Gorki, “A mãe”. Ainda mudo, o filme (“Matt” no original,) conta a história do processo individual de tomada de consciência social de uma passiva dona de casa, essa Niovna Vlasova, até o gesto definitivo de engajamento libertário – grande desempenho da atriz Vera Baranovskaya.
No cinema falado, acho que a primeira grande representação da figura da mãe vem com “Dama por um dia” (“Lady for a day”), produção de 1933 do inigualável Frank Capra, narrando o mais que comovente dilema dessa pobre vendedora de maçãs, Apple Annie (May Robson), ao saber que a filha rica vai vir do exterior, com o seu esposo nobre, para visitá-la, a ela que (sem que a filha saiba) hoje não passa de uma mendiga num bairro popular de Nova Iorque.
Outra película lacrimosa é também dos anos trinta: “Stella Dallas mãe redentora” (1937) com direção de King Vidor, e com a insuperável Barbara Stanwyck na pele dessa mãe que, com a sofisticada ascensão social da filha, vai, na sua breguice, se tornando incômoda, ao ponto de, ela mesma, tomar consciência de sua discrepância cultural, e, para o bem da filha, fazer o supremo sacrifício de afastar-se e assumir, sozinha, a solidão da idade.
Aliás, sacrifício parece ser a palavra chave quando se trata da condição materna. Não é pouco o da mãe em “As vinhas da ira” (“The grapes of wrath”) que o mestre John Ford, adaptando John Steinbeck, dirigiu em 1940. Impossível esquecer, no meio dos hostis laranjais da California, o rosto sofrido de Jane Darwell no papel daquela heroica Ma Joad, papel que, aliás, lhe deu o Oscar de melhor atriz coadjuvante.
Outro caso a lembrar, seria o melodrama de Michael Curtiz, onde a intitulação brasileira já diz tudo: “Alma em suplício” (“Mildred Pierce”, 1946). Aqui a grande Joan Crawford nos oferece um dos seus magistrais desempenhos como a mãe, designada no título original, que dolorosamente se divide entre o sucesso comercial e o compromisso com uma filha mimada, dois caminhos sem chance de cruzamento.
Do mesmo ano, 1946, “Só resta uma lágrima” (“To each his own”) nos comove até as lágrimas com essa história de uma mãe solteira que é forçada pelas circunstâncias sociais a abdicar do filho recém-nascido – o que não impede que, de longe, e anonimamente, o acompanhe até... Bem, até um desenlace que poderia ter sido feliz, e não foi. Direção do mestre das emoções Mitchell Leisen, com a estupenda Olivia de Havilland como a mãe excluída Jody Norris.
“Imitação da vida” (“Imitation of life”, 1959) é, nessa linha da mãe sacrificada, um dos filmes mais lembrados. Nele Juanita Moore vive Annie Johnson, uma empregada doméstica afrodescendente, cuja filha, de cor branca, não aceita sua origem, e a renega. Um quase libelo do diretor dinamarquês Douglas Sirk, ao tempo em que as questões raciais começavam a eclodir, nos Estados Unidos dos anos cinquenta. Filme forte, um dos meus preferidos.
Uma outra grande figura materna, agora na Europa, vamos encontrar na cativante Rosaria, a pobre matriarca de uma família de belos mancebos, com quem ela se muda, do Sul precário da Itália para o norte próspero. Mas, a vida em Milão não é fácil e “Rocco e seus irmãos” (“Rocco e i suoi fratelli”, 1960) de Luchino Visconti, nos relata essa tragédia urbana cheia de dores, com a atriz grega Katina Paxinou no papel da mãe Rosaria Parondi.
Outra mãe europeia está em “Mamma Roma” (1962) de Pier Paolo Pasolini, com a magnífica Ana Magnani no papel-título, como uma ex-prostituta de meia idade que, com esforço sobre-humano, tenta reconquistar uma vida digna, e o passado não lhe permite. A presença de um filho adolescente e marginal complica tudo e a história termina em desventura.
E fecho com mais um melodrama hollywoodiano, “Madame X” (1966), de David L. Rich, a aventura de uma mulher, Holly Parker, que – como no já citado “Só resta uma lágrima” – vê-se obrigada a tomar distância do filho pequeno, reencontrando-o muito tempo depois, em circunstâncias criminais, ele advogado, ela uma ré sem nome, chamada apenas de X. Lana Turner faz o papel dessa mãe trágica.
Enfim, o cinema clássico também criou mães despóticas (checar: “Vidas Amargas”, 1955), mas esta é outra história, que fica para outra ocasião.
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