
O espelho da academia devolvia corpos em movimento como se devolvesse o próprio tempo.
Braços erguidos, pernas ritmadas, respirações cortando o ar ao som de uma música repetitiva, dessas que são feitas para acelerar o coração até que o cérebro esqueça de pensar.
Num canto, sentado com um bloco de notas aberto, um homem escrevia.
A professora de dança contava os passos como quem administra o caos: um, dois, gira, respira, sorri.E todos obedeciam.
Estranha beleza naquela coreografia coletiva. Uma tentativa de felicidade sincronizada.
Como se a humanidade inteira tivesse decidido não parar mais.
O observador anotava frases rápidas porque até as ideias, agora, parecem ter prazo de validade.
Antigamente, as pessoas escreviam cartas demoradas. Hoje, escrevem mensagens aflitas. Antigamente, olhava-se o horizonte.
Hoje, olha-se a notificação.
A sala inteira dançava diante do espelho.
E o espelho, silencioso, fazia o que os espelhos fazem desde a invenção do primeiro reflexo: mostrava sem explicar.
Ali estavam homens e mulheres correndo atrás de alguma coisa invisível.
Não era apenas saúde.
Não era apenas estética.
O espelho refletia uma tentativa desesperada de continuar pertencendo ao tempo.
O século XXI transformou o envelhecimento numa culpa estética. As rugas viraram inimigas públicas. O cansaço tornou-se vergonha. Parar virou suspeita.
A professora gritava: “Mais energia!”
E todos aumentavam o ritmo feito soldados convocados para uma guerra contra o próprio corpo.
O observador percebeu então que a academia era uma espécie de catedral contemporânea.
No passado, buscava-se a salvação da alma.
Agora, busca-se a salvação da imagem.
O espelho multiplicava pessoas infinitamente.
Cada reflexo parecia perguntar: “Você ainda é aceito?” “Você ainda é jovem?”
“Você ainda consegue acompanhar?”
Ninguém respondia.
Dançavam.
O homem do bloco de notas olhou para os próprios cabelos embranquecidos refletidos no vidro amplo da sala.
Lembrou-se de quando a vida tinha intervalos.
As tardes longas. As conversas sem relógio.
Os domingos pareciam durar um século inteiro. Hoje, até o lazer chega cansado.
A coreografia prosseguia.
Corpos giravam em perfeita obediência ao ritmo imposto pelas caixas de som.
E aquilo parecia muito mais do que dança.
Parecia a própria civilização contemporânea: todos correndo, sorrindo, transpirando, repetindo movimentos, sem saber exatamente quem escolheu a música.
O espelho continuava imóvel.
Talvez os espelhos sejam os últimos filósofos silenciosos do mundo.
Eles não corrigem ninguém.
Não elogiam.
Não condenam.
Apenas devolvem.
E devolver, às vezes, é cruel.
O observador fechou o bloco de notas devagar.
A aula terminou sob aplausos automáticos.
Alguns correram imediatamente para os celulares, como náufragos retornando ao mar que quase os afoga.
Então ele percebeu que o maior exercício daquela sala não era físico.
Era sustentar a própria imagem diante do espelho sem esquecer quem se é quando a música acaba.
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