CATANDO POESIA COM VERA LUNA
João Batista de Brito
No prefácio e na apresentação, o poeta Sérgio de Castro Pinto e o escritor Chico Vianna já demonstraram muito bem a qualidade poética do livro de Vera Luna, “EM TEMPO” (Ed. Ideia, 2025), mas não custa nada insistir nas boas vindas a essa poeta que estreia com brilho.
Conheci Vera Luna nos velhos corredores da saudosa FAFI, final dos anos sessenta, mais precisamente, 1968. Éramos dois jovens estudantes da graduação em Letras, cheios de expectativas e dúvidas. Tempos duros: AI-5 e governo Médici. Embora não fôssemos ativistas não ficamos indiferentes ao lado mais feio da Ditadura. Concluímos o curso e cada um tomou seu rumo. Mais tarde, nos reencontraríamos sempre na UFPB, vizinhos de departamentos, eu no Departamento de Letras Estrangeiras Modernas, Vera no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, agora colegas de muitos que haviam sido nossos professores.
Aposentamo-nos como meros colegas, cada um na sua labuta, e, sem contato mais próximo, de minha parte não conhecia os dotes de Vera que agora constato: poeta e, como se não bastasse pintora. Ótima surpresa.
Sérgio e Chico já apontaram os méritos de seu livro e não vou redundar o já tão bem colocado. O que não me impede de fazer, aqui, uma singela homenagem à poeta, recitando um dos seus belos poemas, no caso, um que – para a minha grata surpresa – dialoga com uma das minhas crônicas no meu livro “Pão com sabor de poesia”. Vejam nele a crônica “Cata/dores” (pg167), e no livro de Vera este seu “Catadores” (pg 103).
Catadores
Curvado, vergado, trabalha
na rua, debulhando sacos.
À procura de um tesouro,
de frutas maduras, nacos.
Cata vidas, latas, garrafas.
Catador de vida digna,
um pão com queijo,
uma roupa limpa,
holerite da reciclagem.
Dobra mais o corpo
entornado no tonel,
escondido o seu rosto.
Cata ouro, encontra cacos,
restos de vergonha a granel.
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