O tempo poético de Vera Luna
Francisco Gil Messias
gmessias@reitoria.ufpb.br
Se há tempo para tudo, como diz o Eclesiastes, chegou a hora da publicação dos poemas da professora Vera Luna, hoje aposentada e que tantos serviços prestou aos paraibanos no ensino da língua e da literatura brasileiras ao longo de décadas. Conheci-a mocinha, talvez em seu primeiro emprego, como minha professora de português no Liceu, lá pelos começos dos anos 1970. Conheci-a e não a esqueci, assim como não esqueci outros mestres da língua pátria que tive a felicidade de ter: Amanda Lucena, Francelino Soares e Chico Viana, sem falar em Dona Laudicéa, a primeira de todos, que me alfabetizou e me abriu os caminhos da vida. Existiram outros e outras na longa jornada, aos quais rendo sempre minhas justas homenagens, pois a todos devo muito do pouco que sou.
Nosso Vandré canta belamente que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Mas será que na vida real é assim? Ou nem sempre podemos fazer a nossa hora, restando-nos apenas esperar que aconteça? Não é simples. As circunstâncias costumam nos governar com mão de ferro e delas somos reféns o mais das vezes. Talvez isso explique porque só agora Vera Luna decidiu publicar os seus poemas. E ainda bem que foi em tempo.
E Em tempo é exatamente o título de seu livro recentemente lançado em bonita noite de autógrafos, que amorosamente reuniu familiares, amigos e muitos dos seus colegas docentes do Departamento de Letras da UFPB, onde ela trabalhou até a aposentadoria. Confidenciou-me Chico Viana que ela, sempre discreta e conciliadora, transitou sem arestas entre os companheiros de magistério, o que explicava a afetividade coletiva que a cercou naquela noite. E não podia ser diferente, pois a doçura pessoal da autora é uma realidade estampada em seu rosto e na maneira de falar. E talvez tenha sido, quem sabe, essa doçura natural, essa timidez dos que não querem se impor aos outros, um dos motivos da demora desse livro, cujos poemas vinham sendo trabalhados há tempos. E é ela mesma quem o diz, em suas Notas introdutórias: “Os poemas aqui reunidos representam um percurso temporal de mais de cinquenta anos, em que, desde jovem, comecei a escrever versos, na ânsia de expressão e na busca da poesia”.
Vê-se, portanto, que se trata de uma obra maturada, como devem ser as obras de arte em geral e muitas outras coisas na vida, já que “a pressa é inimiga da perfeição”, diz o povo em sua sabedoria milenar. A mocinha e a mulher adulta aparecem nos 61 poemas do livro, revelando a mulher em formação e a mulher feita, buscando “reter a vida, os afetos, êxtases e angústias, através do olhar, e do trabalho paciente com a linguagem”.
O trabalho paciente com a linguagem. Esta frase diz muito sobre os poemas e sua autora. Em todos os escritos, vê-se a nítida necessidade de expressão de que fala o verso final do poema que abre o livro, “Carta de euforia”: “Muda, não fico, não fico”. Mas também se observa o cuidado com a palavra, revelador da artesã e da mestra. Portanto, nada de açodamentos e precipitações.
Observei uma presença que atravessa muitos dos poemas: o mar. O mar ele mesmo e o mar como símbolo, como metáfora. Uma das possíveis explicações para essa presença marítima talvez seja o fato de que a autora viveu, desde os 8 anos, no litorâneo bairro do Cabo Branco, ali onde o Atlântico, quase sempre de forma branda, beija as areias da estreita faixa de terra que leva o nome do ponto geográfico célebre.
O mar, no mar,
flutuo em cálidos azuis.
Ah mar, amar…
No balanço dessas águas mergulho
e não sei onde parar …
Os poemas são assumidamente confessionais, o que, para mim, é muito bom. Pois o que, na nossa vida, não é confissão? O que fazemos é confissão e o que falamos também. A arte é confissão, a literatura é confissão. E não há como ser diferente. Só a Inteligência Artificial não é e não pode ser confessional, pois vai confessar o quê? Há críticos que têm preconceito contra a confissão. Não percebem eles que essa postura rígida é por sua vez confessional. Naturalmente que há confissões e confissões, nem toda alcança o estatuto artístico ou literário.
O volume traz preciosos textos introdutórios de Sérgio de Castro Pinto e de Chico Viana, e belas ilustrações da própria poeta, também artista plástica. E a caprichada edição é da Ideia Editora.
Chegou em tempo, portanto, a suma poética de Vera Luna, tanto para ela própria, quanto para os leitores. Ainda bem. E que ela ainda nos dê outros livros. Que suas gavetas não guardem as suas produções indefinidamente e que elas venham à luz, como deve ser. Encerro com um escolhido poema, sem demérito dos demais, para abrir o apetite dos leitores:
Descompasso
Entre a fala e o entendimento
Entre o que se deseja e o que se diz
Entre um e outro mundo
O outro – indecifrável enigma
Palavras intraduzíveis
Idioma que não se aprende
Sinais ininteligíveis
Indizíveis percepções
Desencontro, descompasso
Desconectados, ligeiros
Distraídos ou absortos
Somos todos estrangeiros
Este poema, a autora esclarece, foi inspirado pelo livro O Polonês, de J. M. Coetzee, cuja leitura também se recomenda.
“Muda, não fico, não fico”. E faz muito bem, poeta. Por que calar quando se tem o que dizer e compartilhar?
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