Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
Varadouro: dupla navegação
Políbio Alves e Antônio David, em Varadouro: navegando imagens (João Pessoa: Tamarindo: 2025), promovem um encontro para o exercício de uma dupla navegação. Aquele, valendo-se dos instrumentos alados da palavra na correnteza dos versos; este, banhando-se de luz e sombra no mágico instantâneo da fotografia.
A geografia que os une, no verbo e na imagem, cristaliza-se na lentidão aquática do rio Sanhauá, às margens da história e da ancestralidade da região do Varadouro, com seus emblemas, mitos, personagens, barcos, peixes, crepúsculos e memórias.
Temos, então, um itinerário, não diria lírico na pureza do termo, porque o poeta desta navegação parece fugir ao clichê da euforia e ao recorte do sublime, para trazer, à tona do poema, as veias e as artérias de uma cidade submersa, decerto esquecida pela ideologia do cânone.
Políbio Alves como que se afasta da estética de um Jomar Morais Souto, no seu clássico Itinerário lírico da cidade de João Pessoa, para incorporar o viés sombrio e assombrado da poética de Augusto dos Anjos, no sentido de cantar “a poesia de tudo quanto é morto”.
Antônio David, com a série de fotos que dialogam com as palavras, no andamento cadenciado do texto, percebe o nutriente vital das coisas concretas, fluviais, humanas, solares, vegetais que rio e região configuram na ambivalência intersemiótica do discurso.
Afinal, como diz o narrador de “As babas do diabo”, antológico conto de Júlio Cortázar: “Entre as muitas maneiras de se combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias”. E é isto o que ele faz, navegando o Varadouro, ao mesmo tempo poema e paisagem.
Nele revela-se aquela consciência do espetáculo de que fala Roland Barthes, em A câmara clara, ao enunciar “essa coisa um pouco terrível que há em toda fotografia: o retorno do morto”. Aqui, o retorno do passado que ainda não passou, pois permanece na solidez da sensibilidade e da imaginação estéticas.
Verso e fotografia se congratulam no ato único da criação artística. Revelam, um complementando a outra, e vice-versa, passos da história e interstícios do entorno urbano, numa sintaxe, simultaneamente verbal e icônica, responsável, portanto, pela possibilidade de um novo olhar sobre a cidade. A cidade baixa, a cidade dos antigos armazéns de secos e molhados, da Ilha do Bispo, da fábrica de cimento, dos velhos casarões, da estação de trem, dos bares e prostíbulos, aqui recuperada e reposta na pauta simbólica do texto artístico.
Vamos, sim, viajar pelo claro e escuro do rio, através das imagens que ilustram e revelam o espaço geográfico e a névoa do tempo, estuário da memória. Feitos e fatos tramados pelo fio da criação.
Vamos, sim, cruzar as linhas do verso que o outro navegante traça, capturando o halo invisível do mundo, inaugurando o lume semântico de outras realidades. O avesso, o encoberto, o sepultado.
Vê-se, aqui, também a navegação da vida. A vida navegando. Tensões e pulsões que ultrapassam os trejeitos do estereótipo, para, nesse insólito movimento e nessa fábula flutuante, fazer emergir a escrita e os caracteres do lodo e da lama, impregnando, com signos, índices e ícones, o corpo da paisagem. Corpo que se recompõe, na metáfora do rio poético, na vitalidade do que resta dos mortos. Isto é, a verdade da história e a beleza da arte.
(Publicado ontem, 24 de maio, em A União)
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