Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

APESAR DE ...


Por: | 26/05/2026


    O mundo costuma esconder sua maior beleza nas coisas que quase ninguém percebe.

Ela não está nos monumentos erguidos para desafiar o tempo, nem nas vitrines acesas tentando convencer os olhos cansados de que a felicidade pode ser comprada. A verdadeira beleza permanece silenciosa, caminhando entre pessoas comuns, dentro de gestos tão pequenos que muitos passam por eles sem notar.

    Mora no homem simples que acorda antes do amanhecer para abrir a padaria enquanto a cidade ainda dorme. Mora na mulher que penteia os cabelos da mãe adoecida com uma delicadeza capaz de devolver sentido aos dias difíceis. Mora no abraço quieto oferecido depois de uma tragédia, quando as palavras já perderam a coragem de existir.

A beleza do mundo continua viva porque ainda existe ternura resistindo ao desgaste da humanidade.

   Uma criança desenha uma casa torta e transforma rabiscos em abrigo. Um velho observa o movimento da rua sentado diante da própria porta, como quem ainda acredita nas pessoas. Dois irmãos dividem a última fruta da geladeira sem perceber que acabaram de ensinar ao universo inteiro o significado da grandeza. Um cachorro espera o dono voltar como se a ausência nunca tivesse sido capaz de ferir a esperança.

O planeta já conheceu guerras, incêndios, fome e violências que rasgaram a história. 

  Ainda assim, alguém continua plantando flores na frente de casa. Ainda assim, existem mãos oferecendo café a desconhecidos em manhãs difíceis. Ainda assim, mães cantam baixinho para seus filhos dormirem enquanto o mundo lá fora se afoga em pressa, buzinas e medo.

  Existe uma beleza quase sagrada nas pessoas que não endureceram.

Naqueles que ainda se emocionam diante da dor alheia. Nos que repartem mesmo tendo pouco. Nos que escutam com paciência. Nos que permanecem humanos apesar do peso dos dias. O mundo continua habitável por causa dessas almas discretas que nunca aparecerão nos livros de história, mas sustentam silenciosamente a esperança da vida.

O que há de mais belo no mundo não cabe em fotografias nem se transforma em espetáculo.

    Às vezes, é apenas uma mão segurando outra mão para que ninguém precise atravessar sozinho a escuridão, ainda que o sionismo e todas as formas de intolerância insistam em devolver ao mundo aquilo que existe de mais horrendo no homem.


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