Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

LA QUESTION


Por: | 28/05/2026


    Quem escuta certas canções antigas entende que a saudade também pode ser um lugar.

A voz vinha baixa, pedindo licença para entrar na memória de alguém. Não havia excesso, nem desespero. Apenas aquela delicadeza que doe devagar. Como a tarde quando termina. Como uma fotografia esquecida dentro de um livro. Como um perfume que insiste em existir depois que a pessoa partiu.

  La Question não parecia música. Parecia um quarto iluminado por abajur, uma janela aberta para a chuva fina de Paris e um coração tentando compreender por que algumas ausências permanecem mais vivas que muitas presenças.

   A vida moderna desaprendeu a dúvida. Tudo agora exige resposta imediata, definição, legenda, posicionamento. Ama-se depressa. Esquece-se com velocidade ainda maior. As pessoas não querem mais sentir o intervalo entre o desejo e a certeza. Onde justamente mora a parte mais humana do amor.

 Françoise Hardy cantava como quem aceita não possuir todas as respostas. Penso que por isso sua voz atravessa décadas sem envelhecer. Ela compreendia que existir também é permanecer suspenso diante de perguntas que nunca terminam completamente.

  Algumas relações acabam sem acabar. Conversas continuam dentro da gente durante anos. Rostos, que desaparecem da rotina, seguem sentados em silêncio no fundo da alma, hóspedes invisíveis.

O amor verdadeiro não é o encontro. É pergunta que fica depois dele.

E poucas coisas envelhecem tão lentamente quanto aquilo que nunca foi totalmente explicado.


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