Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

O CLANDESTINO


Por: | 30/05/2026


 Quem é esse sujeito escondido atrás da nossa voz?

Não falo do nome nos documentos.

Nem da fotografia que envelhece lentamente nas gavetas digitais.

Falo daquele outro, o clandestino. O que atravessa os dias sem registro oficial.

Ele aparece em pequenas fugas.

   Quando alguém interrompe uma conversa e olha demoradamente pela janela, não é distração. É evasão. Durante alguns segundos, a alma abandona o posto de trabalho e vai caminhar descalça por algum território perdido da memória.

Somos feitos dessas deserções discretas.

   Um homem discursa sobre responsabilidade fiscal enquanto imagina viver num barco sobre o Rio Negro, vendendo café e silêncio. Uma senhora religiosa rega as plantas ouvindo tangos antigos e sente vontade de dançar abraçada com um fantasma elegante de Buenos Aires. Um jornalista escreve sobre a objetividade dos fatos enquanto esconde, no bolso da camisa, um verso que ninguém vai ler.

O clandestino em nós raramente comete grandes crimes.

Seu delito preferido é sonhar sem autorização.

Ele sobrevive nos detalhes.

Na vontade súbita de sumir durante uma festa.

No desejo de pegar uma estrada sem informar destino.

Na saudade de pessoas que já nem existem da mesma forma.

Na coragem imaginária que sempre chega tarde.

Cada pessoa transporta um pequeno mercado ilegal dentro do peito. Contrabandeamos lembranças, desejos, arrependimentos, versões alternativas da vida. Passamos diariamente pela fiscalização do cotidiano fingindo normalidade, enquanto escondemos universos inteiros sob o casaco da aparência.

Por isso ninguém conhece ninguém completamente.

  O sujeito mais austero do edifício pode conversar secretamente com a lua. O rapaz barulhento talvez chore ouvindo uma canção francesa antiga. A mulher sorridente talvez carregue um cansaço que nunca conseguiu traduzir em palavras.

Existem florestas escondidas sob o asfalto das pessoas.

    E a civilização passa o tempo inteiro tentando pavimentar nossos instintos. Ensina postura, disciplina, compostura, produtividade. Quer transformar rios em planilhas. Quer domesticar o espanto.

Mas sempre sobra alguma coisa indomável.

Um pássaro batendo asas dentro do peito.

Um menino querendo fugir da aula para ver a chuva.

Uma vontade inexplicável de recomeçar aos sessenta anos.

O clandestino é a parte de nós que se recusa a morrer antes do corpo.


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