
Alguns homens viajavam olhando o horizonte.
Outros, as estrelas. Havia também aquele que passava boa parte do tempo olhando para a própria embarcação.
Não era uma função cercada de prestígio. Enquanto os olhos dos demais procuravam o que estava adiante, os dele permaneciam atentos ao que estava ao redor. O tecido das velas. A tensão das cordas. O peso da carga. O modo como a madeira respondia ao vento.
Conhecia a nau sem precisar vê-la inteira.
Bastava um ruído. Um ranger diferente.
Uma inclinação quase imperceptível.
Pequenos sinais que passariam despercebidos para a maioria.
E toda travessia dependia disso.
Não apenas da capacidade de encontrar caminhos, mas da atenção dedicada ao que parece mínimo.
Os grandes acontecimentos costumam receber nomes, datas e registros. Já os pequenos raramente deixam vestígios.
Uma palavra dita no momento exato.
Um gesto.
Uma pausa.
Uma delicadeza.
Quase nada.
E, no entanto, são essas coisas que muitas vezes impedem os naufrágios invisíveis.
O mar sabe disso. As tempestades impressionam porque são raras. O desgaste diário, não. A água que infiltra lentamente. O sal que corrói sem pressa. O vento que, de tanto insistir, modifica a forma das coisas.
Pouco a pouco. Sem alarde.
Algumas pessoas passam a vida inteira ocupadas com horizontes e, ainda assim, não conseguem avançar.
Outras seguem adiante quase sem perceber.
Não porque tenham recebido ventos melhores.
Mas porque alguém, em silêncio, continuou cuidando do que parecia insignificante.
Gosto de imaginar esse homem caminhando pelo convés ao amanhecer.
Nada de grandes descobertas.Nada de discursos. Apenas observando.
Tocando a madeira.
Escutando.
Percebendo.
Como se soubesse que as viagens mais longas não dependem apenas da direção escolhida.
Dependem daquilo que permanece inteiro enquanto o tempo passa.
E talvez exista em nós uma parte assim.
Discreta.
Sem ambição de comandar ou aparecer nos mapas.
Uma parte que apenas vigia.
Que percebe quando algo começa a se romper.
Que reconhece o valor das pequenas correções.
Que trabalha sem aplausos.
E que, por razões difíceis de explicar, continua mantendo a travessia possível.
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