Hildeberto Barbosa Filho
A ferrugem do coração, eis um título que, no seu poder catafórico, apontando direções e possibilidades semânticas, se ajusta bem aos conteúdos e motivos desta nova coletânea de poemas de Luís Augusto Cassas, maranhense radicado em São Paulo, autor de uma vasta obra poética, conhecida e consagrada.
Sem perder o viés espiritual e quase místico que caracteriza sua expressão lírica atenta aos elementos essenciais da condição humana, Luís Augusto Cassas, neste conjunto de poemas, parece privilegiar a tonalidade realista, crítica e irônica, em face dos desacertos de uma sociedade materialista, narcísica, cansada, apática e sem expectativas.
A palavra “ferrugem” registra bem este estado de coisas e alude metaforicamente ao desgaste e ao dilaceramento dos valores que permeiam os círculos do coração. O poeta, a partir de seu ponto de observação, condicionado pela flama da sensibilidade lírica, como que faz a crítica do mundo, trazendo à tona, às vezes de maneira dura, às vezes de modo sarcástico, às vezes em timbre elegíaco, os conflitos, as contradições, as fraturas de uma realidade intolerante, em tudo avessa a uma possível ética da hospitalidade.
O primeiro poema, “Manicômio”, espécie de profissão de fé, chama-me a atenção, não somente para a tática metalinguística do poeta e para sua configuração subjetiva, enquanto voz que sente e pensa, mas também para o universo das ocorrências que virá pela frente. Leia-se o texto: “dizem que o escritor ∕ é um esquizofrênico ∕ que deu certo ∕∕ sou prova dos nove ∕ dessa verdade pessoal ∕ e intransferível”.
Decerto, para se captar os ingredientes negativos de uma determinada situação, é preciso, sim, que o olhar vá além das máscaras e das aparências; que a percepção instaure um corte diante da ilusória linearidade dos objetos e dos fenômenos; que, enfim, se socorra do critério da deformação, para que o avesso e o invisível das coisas e dos seres possam emergir em sua inteira disponibilidade.
A poesia também pode ser isto: um olhar deformado, uma saudável esquizofrenia. E esta poesia que leio, na sua variedade de tópicos e motivos, no seu ritmo peculiar, no seu estilo que não teme a mescla e as impurezas, serve-me de elemento probatório.
Em A ferrugem do coração, Luís Augusto Cassas, como em outros títulos de sua lavra, exercita uma poética da disforia, isto é, uma poética que convoca o grotesco e o desconfortável para se converter na insólita beleza do signo estético. O poema “Banhado no cuspo de tuas palavras” sinaliza neste sentido, senão vejamos: “não guardei os sábados ∕ os dias santos ∕ em tudo trabalhei ∕ para a tua obra ∕ banha-me no cuspo ∕ de tuas palavras ∕ absolve-me ∕ das profanações ∕ condena-me ∕ a um silêncio ∕ de ruínas”. Outros textos, como “As chaves do abismo”, “Hospital Ninas Rodrigues”, “Os deuses estão aqui”, “Boletim de ocorrências” e “Ensaio de numismática”, entre tantos, atestam a verdade desta vertente poética.
Em “Confeitaria das palavras”, o quarteto final me atinge como uma pedra de toque, na medida em que, em close vocabular, alcança-se o tônus seminal da poesia. “morrer ∕ no poema ∕ renascer ∕ no outro”.
Quero crer que o sumo desta verdade, filosófica e estética, isto é, que o poema é o lugar do outro, converge necessariamente para a disposição de uma linguagem disfórica. Luís Augusto Cassas demonstra isto a contento, sobretudo, em poemas como “Bulas”, Comprimidos”, “Stars”, “Dieta para tempos anoréxicos”, “Ensaio de numismática”, “Não te rebelarás” , “A jaula” e, em particular, pela plenitude da forma, em conteúdo e expressão, em “Corrida C∕vara”, que aqui transcrevo: “sempre adiei o abismo ∕ pra que a queda ∕ fosse mais longa ∕ e o gozo mais profundo ∕∕ viver é amamentar ∕ suicídios e ficar vivo ∕ dançando com o vento ∕ na beira dos signos”.
Um poema deste naipe garante a solidez de um poeta. Vale pela seletividade de uma antologia pessoal. A intrínseca ironia do título, aliás, um procedimento especial do autor, associada a outras camadas textuais, sobretudo, as metáforas e os paradoxos, assim como a capacidade de jungir, na mesma sintaxe, o concreto e o abstrato, o físico e o metafísico, o contingente e o transcendental, eleva este exemplo ao patamar de emblema poético.
Como disse, no início deste texto, Luís Augusto Cassas é maranhense. O Maranhão é terra de grandes poetas, como Gonçalves Dias, Ferreira Gullar, Nauro Machado, José Chagas, Manuel Caetano Bandeira de Melo, Odylo Costa, Filho, Bandeira Tribuzzi e outros. Luís Augusto Cassas, não tenho dúvidas, é um deles.
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