Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

INTOLERÂNCIAS


Por: | 05/06/2026


   Há alguns meses, durante uma consulta com um nutrólogo, ouvi uma recomendação que me pareceu estranha. Reduzir o consumo de leite e de glúten. Não porque fossem venenos, explicou ele, mas porque determinados organismos já não conseguem processá-los da mesma forma. O que para muitos continua sendo alimento, para outros se transforma em desconforto, inflamação e sofrimento silencioso.

Saí da consulta pensando mais na vida que na dieta.

    Durante séculos, o leite foi símbolo de sustento. O pão, de partilha. Em torno deles, famílias se reuniram, povos se formaram, civilizações encontraram uma linguagem comum para celebrar a sobrevivência e a esperança.

   Mas os tempos ensinaram que nem tudo o que alimenta a maioria alimenta a todos. Há organismos que recebem o leite como desconforto. Há corpos que encontram no glúten não energia, mas inflamação. O problema não está necessariamente no alimento. Está na incapacidade de assimilá-lo sem sofrimento.

Como nós, as sociedades também possuem suas intolerâncias.

  Existem ideias que, em pequenas doses, podem até integrar o debate democrático. Mas, quando se transformam em obsessão coletiva, deixam de nutrir e passam a corroer.

 A extrema-direita contemporânea parece ser uma dessas substâncias.

 Chega revestida de modernidade. Circula por satélites, redes sociais, plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial. Fala a linguagem do futuro enquanto carrega, no fundo da bagagem, velhos fantasmas.

Seu sonho não é propriamente novo. É antigo. Antigo como os tempos em que a autoridade dispensava o diálogo, a fé dispensava a dúvida e o poder dispensava qualquer forma de contestação.

Isso é medieval.

    Não nas catedrais, que eram obras de arte e engenho humano, mas na intolerância. Na perseguição ao pensamento divergente. Na desconfiança diante da ciência. Na necessidade permanente de dividir o mundo entre fiéis e inimigos. Entre o bem e o mal.

A contradição beira a poética.

    Utilizam-se as ferramentas mais sofisticadas já criadas pela inteligência humana para desacreditar a própria inteligência humana. Smartphones tornam-se tochas. Redes globais convertem-se em muralhas. Algoritmos passam a distribuir superstições em escala industrial.

Tudo parece novo.

Nada é realmente novo.

A embalagem é tecnológica; o conteúdo pertence a um passado que muitos imaginavam superado.

     Como acontece com certas intolerâncias alimentares, os sintomas aparecem aos poucos. Primeiro surge a sensação de conforto produzida pelas respostas simples.

Depois vem a rejeição à complexidade. Em seguida, a necessidade de encontrar culpados. Por fim, instala-se a inflamação: do debate público, das instituições, da convivência entre diferentes.

A democracia, então, começa a perder sua capacidade de absorver nutrientes essenciais. A verdade torna-se indigesta. O conhecimento passa a ser visto com suspeita.

A ignorância, ao contrário, ganha aparência de autenticidade.

   E assim sigo lembrando daquela consulta.

O nutrólogo falava do corpo, mas a história parecia falar das sociedades. Nem toda intolerância é visível de imediato. Algumas levam anos para se manifestar. Quando os sintomas finalmente aparecem, o organismo já está comprometido.

Talvez estejamos vivendo exatamente esse momento.

  Uma parcela do mundo acredita estar construindo o amanhã enquanto restaura, peça por peça, velhos mecanismos de submissão. Como quem instala internet de alta velocidade num castelo cercado por fossos.

A tecnologia avança.

Mas uma parte do pensamento insiste em caminhar para trás.




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