
Conheci a paixão como se conhece uma tempestade amazônica.
Chega sem aviso. Escurece o céu. Faz as árvores dobrarem o corpo. Arranca telhas antigas, espalha folhas pelo quintal da alma e, por algumas horas, convence o mundo de que nada existia antes dela.
A paixão tem o talento dos invasores.
Entra pela porta da frente sem pedir licença e rearruma os móveis da razão. Faz do relógio um objeto inútil. Transforma um simples nome numa obsessão. É uma fogueira que se alimenta de tudo: da ausência, da expectativa, do impossível.
Já o amor não chega.
Vai ficando.
Instala-se devagar, como a claridade que se espalha pela casa antes mesmo de alguém perceber que amanheceu. Não exige espetáculo. Não precisa de trombetas. Tem a discrição das coisas que pretendem durar.
A paixão nos promete o infinito.
O amor aprende a conviver com os limites.
A paixão ama a imagem.
O amor aprende os defeitos.
A paixão dança.
O amor permanece depois que a música termina.
Durante muito tempo imaginei que a fidelidade pertencesse à paixão. Afinal, é ela quem faz o coração correr. É ela quem escreve cartas que nunca serão enviadas. É ela quem transforma um encontro numa epopeia.
Mas os anos possuem uma pedagogia silenciosa.
Ensinaram-me que a paixão é uma visitante ilustre. O amor é o morador da casa.
Quando a febre baixa, quando os corpos se acostumam um ao outro, quando a juventude começa a recolher seus brinquedos do chão, é o amor que continua colocando água nas plantas, fechando as janelas antes da chuva e acendendo uma pequena luz para quem retorna tarde.
A paixão deseja.
O amor escolhe.
E escolher alguém todos os dias talvez seja o gesto mais raro da condição humana.
Por isso, se existe uma fidelidade verdadeira, ela não pertence ao incêndio.
Pertence à brasa.
Àquela chama pequena que já não ilumina montanhas nem assombra os viajantes, mas que atravessa as noites mais longas sem se apagar.
A paixão é o verso que se escreve de um só fôlego.
O amor é o livro inteiro.
E quando a vida se aproxima do crepúsculo, quando o corpo se torna mais memória do que promessa, não é a tempestade que permanece na lembrança.
É a luz acesa na varanda.
É a mão que continuou ali.
É o nome que o tempo não conseguiu levar. Foto: Paullo Amarall (Teatro Municipal de São José dos Campos)
Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário