Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

AO QUE FICA, AO QUE ARDE


Por: | 07/06/2026


    Conheci a paixão como se conhece uma tempestade amazônica.

Chega sem aviso. Escurece o céu. Faz as árvores dobrarem o corpo. Arranca telhas antigas, espalha folhas pelo quintal da alma e, por algumas horas, convence o mundo de que nada existia antes dela.

A paixão tem o talento dos invasores.

   Entra pela porta da frente sem pedir licença e rearruma os móveis da razão. Faz do relógio um objeto inútil. Transforma um simples nome numa obsessão. É uma fogueira que se alimenta de tudo: da ausência, da expectativa, do impossível.

Já o amor não chega.

Vai ficando.

   Instala-se devagar, como a claridade que se espalha pela casa antes mesmo de alguém perceber que amanheceu. Não exige espetáculo. Não precisa de trombetas. Tem a discrição das coisas que pretendem durar.

A paixão nos promete o infinito.

O amor aprende a conviver com os limites.

A paixão ama a imagem.

O amor aprende os defeitos.

A paixão dança.

O amor permanece depois que a música termina.

  Durante muito tempo imaginei que a fidelidade pertencesse à paixão. Afinal, é ela quem faz o coração correr. É ela quem escreve cartas que nunca serão enviadas. É ela quem transforma um encontro numa epopeia.

Mas os anos possuem uma pedagogia silenciosa.

Ensinaram-me que a paixão é uma visitante ilustre. O amor é o morador da casa.

   Quando a febre baixa, quando os corpos se acostumam um ao outro, quando a juventude começa a recolher seus brinquedos do chão, é o amor que continua colocando água nas plantas, fechando as janelas antes da chuva e acendendo uma pequena luz para quem retorna tarde.

A paixão deseja.

O amor escolhe.

E escolher alguém todos os dias talvez seja o gesto mais raro da condição humana.

Por isso, se existe uma fidelidade verdadeira, ela não pertence ao incêndio.

Pertence à brasa.

Àquela chama pequena que já não ilumina montanhas nem assombra os viajantes, mas que atravessa as noites mais longas sem se apagar.

A paixão é o verso que se escreve de um só fôlego.

O amor é o livro inteiro.

    E quando a vida se aproxima do crepúsculo, quando o corpo se torna mais memória do que promessa, não é a tempestade que permanece na lembrança.

É a luz acesa na varanda.

É a mão que continuou ali.

É o nome que o tempo não conseguiu levar.    Foto:    Paullo Amarall   (Teatro  Municipal de São José dos Campos)


Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário