
A Copa do Mundo de 2026 nem começou direito e já nos brinda com o maior espetáculo da hipocrisia contemporânea. A FIFA, aquela entidade supranacional que adora vender a ilusão de que o futebol une os povos, resolveu fazer a festa nos Estados Unidos. O problema é que os donos da casa decidiram que a festa é global, mas a porta da frente tem um leão de chácara com detector de melanina e passaporte. É a “Copa da Exclusão”, um delírio biopolítico onde a bola é redonda, mas o mundo é quadrado e cheio de muros.
Pensemos no absurdo: Omar Abdulkadir Artan, um árbitro somali de 34 anos, escalado pela própria FIFA, foi barrado na fronteira [1]. Tinha visto, tinha credencial, tinha o apito no bolso. Mas, para a imigração americana, ele era “inadmissível”. Inadmissível! A palavra tem um peso kafkiano. O sujeito não é um terrorista, é um juiz de futebol! Mas, na lógica paranoica do Tio Sam, um somali correndo num gramado americano é uma ameaça à segurança nacional. É o racismo institucionalizado vestido de burocracia. O governo da Somália chiou, falou em “violação do fair play” [1]. Fair play? Meu amigo, o fair play morreu de inanição na sala de espera da alfândega.
E não para por aí. O fotógrafo iraquiano Talal Saleh foi mandado de volta [1]. O atacante Aymen Hussein, também do Iraque, ficou sete horas detido para interrogatório [1]. Sete horas! Imagino o diálogo: “Senhor Hussein, o que o senhor pretende fazer nos Estados Unidos?” “Fazer gols, senhor oficial.” “Gols? Isso é algum código para armas de destruição em massa?” É de um ridículo atroz. A seleção do Haiti, coitada, está mendigando vistos [1]. E o Irã? A delegação iraniana vai ficar hospedada em Tijuana, no México, e só cruza a fronteira para jogar, voltando correndo antes que a carruagem vire abóbora ou que um drone resolva fazer uma visita [1]. É o futebol no estado de exceção de Giorgio Agamben: o estádio é a zona onde a lei normal é suspensa para o espetáculo, mas a fronteira é onde o poder soberano decide quem é humano o suficiente para entrar [2].
A ironia é que o slogan da Copa é “United” (Unidos). Unidos contra quem, cara pálida? A administração Trump, com sua retórica de “países podres”, transformou o maior evento esportivo do planeta num puxadinho da sua política de imigração xenófoba [1]. E a FIFA? A FIFA, com aquela coragem de um molusco, lava as mãos. Diz que não se mete em “problemas migratórios” [1]. Claro, a FIFA só se mete onde tem dinheiro. Cancelaram até as mensagens antirracismo que estavam planejadas [3]. É o triunfo do cinismo. O futebol, que sempre foi a válvula de escape dos oprimidos, a vingança simbólica do Terceiro Mundo contra o Primeiro, agora precisa de visto premium e verificação de antecedentes.
Nós, brasileiros, que sempre achamos que a Copa era o nosso carnaval de inverno, assistimos a isso com uma perplexidade melancólica. O mundo não é mais aquele lugar onde um drible do Garrincha resolvia qualquer crise diplomática. Hoje, o drible tem que ser no agente da imigração. A Copa de 2026 é o retrato de um mundo doente, um mundo que quer o lucro do espetáculo global, mas tem nojo do público global. Querem o talento africano, a paixão latina, a técnica europeia, mas desde que não sujem o carpete da sala de estar americana.
No fim das contas, a bola vai rolar. Haverá gols, choro, patrocinadores sorridentes e a velha ilusão de que somos todos iguais durante noventa minutos. Mas, fora do estádio, o muro continua lá, invisível e implacável, lembrando a todos que, no grande jogo do capitalismo globalizado, alguns nasceram para jogar, e outros, apenas para serem barrados na porta.
Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário