A França e a homenagem nacional a Edgar Morin
Francisco Gil Messias
gmessias@reitoria.ufpb.br
Assisti pelo Youtube à homenagem oficial que o governo francês prestou ao pensador Edgar Morin, recentemente falecido aos 104 anos. Foram honras de Estado, com toda a pompa e a circunstância pertinentes. As mais importantes autoridades presentes, inclusive o presidente da República, que fez emocionado discurso. Também um ex-presidente e alguns ex-primeiros-ministros, sem falar nos intelectuais de peso. A cerimônia aconteceu no Hôtel des Invalides, local muito próprio para eventos desses porte e significado. Sentia-se que ali estava a França reverenciando um de seus filhos mais ilustres, verdadeiro patrimônio nacional.
Como os ingleses, os franceses entendem de cerimonial e sabem organizar cerimônias como essa, dando-lhes uma gravidade toda própria, como é devido. Nada de improvisação, tudo quase que cronometrado, numa sequência lógica e inteligente. Após a chegada e a acomodação dos convidados e, por último, do presidente Emmanoel Macron, o caixão de Morin, coberto pela bandeira francesa, adentrou o local, conduzido vagarosamente nos ombros de militares fardados a rigor. Então o esquife foi colocado diretamente no chão, em frente à tribuna em que falaria em seguida o chefe de Estado. Este, pronunciou então a sua fala, em nome da nação enlutada. Depois, uma banda de música, também militar, executou a Marselhesa. E finalmente o caixão foi conduzido para os procedimentos finais da homenagem.
Como se vê, algo digno de um herói nacional. A França gosta de reverenciar seus grandes nomes, sejam políticos, sejam artistas, sejam intelectuais. Lembro-me de que nos funerais de Jean- Paul Belmondo o ritual foi semelhante, o que significa que para os franceses não são só os políticos que merecem essas honras de Estado. E por aí se vê a importância da sociedade civil como um todo na vida do país; por aí se vê o peso da cultura na sociedade, ao ponto de um grande artista ou intelectual ser igualado a um estadista. Coisas da civilização. Um Sócrates valendo tanto quanto um Péricles, por exemplo.
Aqui, nestes tristes e desesperançados trópicos, não se cultiva essa bela tradição de se reverenciar oficialmente os grandes da pátria que não sejam políticos, militares ou assemelhados. Aqui, é o próprio povo que se organiza e homenageia os seus ídolos; o Estado quase sempre se faz ausente quando se trata das exéquias de grandes artistas e de grandes intelectuais. No máximo, uma ou outra autoridade dá uma passadinha rápida no velório, para registro da imprensa e respectivos ganhos eleitorais. Não há ritual nem a gravidade correspondente. É como se o Estado, nesses casos, dissesse que aquilo não lhe diz respeito, evidenciando explicitamente o imenso abismo que o separa da vida cultural da nação. Coisas da barbárie. Um Sêneca valendo menos que um Nero.
Não conheço, salvo superficialmente, o pensamento e a extensa obra de Edgar Morin, mas sei de sua importância como pensador contemporâneo; sei da altitude intelectual que alcançou não só na França, mas para muito além dela. Provavelmente fosse, nos dias atuais, o decano da intelectualidade ocidental. Uma voz a ser ouvida com respeito.
De sua lavra, detive-me em dois livros que eu consideraria, digamos, periféricos, pois não tratam especificamente de seu pensamento mais profundo. São livros mais memorialistas que teóricos: Minha Paris Minha Memória (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2015) e Lições de um Século de Vida (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2021). No primeiro ele escreveu: “Quase todos os principais eventos da minha vida ocorreram em Paris – aqui, eu vivi meus momentos mais importantes. Inevitavelmente, minhas memórias pessoais confundem-se com as de uma Paris que não é a mesma dos dias de hoje. Isso cria uma mistura – espero que interessante – de subjetividade e objetividade, histórias de amor e estações de metrô, trabalho, aprendizado e luta, mas também momentos íntimos de mudanças e andanças”. E no segundo: “Que fique bem claro: não dou lições a ninguém. Tento extrair lições de uma experiência centenária e secular de vida, e desejo que elas sejam úteis a cada um, não só a quem queira refletir sobre a própria vida, mas também a quem queira encontrar a própria Vida”. Isso dá uma ideia das duas obras e de seu eventual interesse para o leitor. Agora deverei ler mais não só sobre ele, mas também outros livros seus, quem sabe.
Volto ao Brasil e à sua sem-cerimônia. Aqui não estou falando de informalidade, que é até uma coisa interessante em nosso caráter nacional, essa proximidade natural que une até desconhecidos e torna mais leve, na maioria dos casos, a existência. Falo de outra coisa: de falta de modos, de compostura, de respeito às liturgias sociais e institucionais; falo de falta de educação elementar e de um mínimo de civilidade, aquilo que, fosse na Inglaterra, distinguiria um cavalheiro de um marujo desbocado, por exemplo. Essas sutilezas comportamentais que nos ajudam a carregar o pesado fardo existencial do dia a dia. Aqui, vemos ministros dançando samba em eventos oficiais e o palavrão se tornar de uso corrente em reuniões ministeriais.
Na expressão do rosto dos presentes à homenagem oficial a Edgar Morin via-se com clareza o orgulho nacional francês. Nós, brasileiros, bem que estamos necessitados desse orgulho de que fomos privados faz tempo.
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