Alessandra Del`Agnese
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Alessandra Del`Agnese

UM BRINDE À PLURALIDADE: ANIVERSÁRIO NO CAFÉ A BRASILEIRA


Por: | 13/06/2026


     Lisboa, 13 de junho de 1936. O Café A Brasileira, no Chiado, fervilhava com o burburinho

habitual, um mosaico de vozes e o tilintar de chávenas que parecia embalar a própria alma da

cidade. Naquela mesa, um portal no tempo se abria, e figuras de um passado não tão distante,

mas de uma era distinta, se reuniam. Fernando Pessoa, com seu ar reservado e o inseparável

chapéu, observava o movimento, um sorriso quase imperceptível nos lábios. Era o seu

aniversário, e a seu redor, a materialização de suas mais profundas e complexas criações

começava a tomar forma.

O primeiro a se achegar, com a simplicidade de quem vem do campo, foi Alberto Caeiro, o

mestre, o poeta da natureza e da sensação pura. Seus olhos claros, desprovidos de metafísica,

pousaram em Pessoa.

Caeiro: Mestre, este dia é apenas mais um dia, mas para ti, que o nomeias “aniversário”, que

seja um ver mais claro do sol e das árvores. Minha palavra para ti é Ser. Que sejas, sem

pensar em sê-lo, como a flor que existe sem questionar sua existência.

Logo em seguida, com a postura altiva e o olhar sereno de quem contempla a eternidade,

Ricardo Reis aproximou-se. Sua voz, calma e medida, ecoou a sabedoria dos antigos.

    Reis: Pessoa, que os deuses te concedam a serenidade de aceitar o destino, sem a vã ânsia

de o moldar. Que este novo ciclo te traga a virtude da indiferença perante o transitório. Minha

palavra, pois, é Equilíbrio. Que a tua alma encontre a justa medida em tudo, como os antigos

ensinavam.

Por fim, com a energia inquieta e o brilho febril nos olhos, Álvaro de Campos irrompeu, sua

voz um misto de entusiasmo e melancolia, a modernidade em pessoa.

   Campos: Ah, Pessoa! Mais um ano, mais um turbilhão de sensações, de máquinas, de portos e

de almas! Que a vertigem da vida te embriague e te lance em novas e grandiosas odes ao nada

e ao tudo! Que a tua existência seja um navio a singrar mares desconhecidos! Minha palavra,

meu caro, é Excesso. Que vivas e sintas tudo, até o limite da exaustão, e além!

  Fernando Pessoa, ouvindo cada um, sorriu com uma ternura quase paternal. Cada palavra,

cada desejo, era um espelho de si mesmo, fragmentado e, ainda assim, inteiro. A pluralidade de

sua alma se manifestava ali, à mesa do café, sob o olhar atento de um observador.

Narrador: E eu, que vos observo de um futuro que é o vosso presente, sinto a gratidão

transbordar. Fernando Pessoa, poeta da minha alma, maior influência na minha história, a ti,

que foste muitos para seres tão singular, o meu mais profundo agradecimento. Por me

ensinares que a complexidade é a mais bela das verdades, e que a poesia reside na

capacidade de sentir o mundo em todas as suas vozes. Feliz aniversário, Mestre. Que a tua

obra continue a ser um farol para todos os que buscam a beleza na fragmentação do ser.

Ao mestre, feliz aniversário 


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