
Lisboa, 13 de junho de 1936. O Café A Brasileira, no Chiado, fervilhava com o burburinho
habitual, um mosaico de vozes e o tilintar de chávenas que parecia embalar a própria alma da
cidade. Naquela mesa, um portal no tempo se abria, e figuras de um passado não tão distante,
mas de uma era distinta, se reuniam. Fernando Pessoa, com seu ar reservado e o inseparável
chapéu, observava o movimento, um sorriso quase imperceptível nos lábios. Era o seu
aniversário, e a seu redor, a materialização de suas mais profundas e complexas criações
começava a tomar forma.
O primeiro a se achegar, com a simplicidade de quem vem do campo, foi Alberto Caeiro, o
mestre, o poeta da natureza e da sensação pura. Seus olhos claros, desprovidos de metafísica,
pousaram em Pessoa.
Caeiro: Mestre, este dia é apenas mais um dia, mas para ti, que o nomeias “aniversário”, que
seja um ver mais claro do sol e das árvores. Minha palavra para ti é Ser. Que sejas, sem
pensar em sê-lo, como a flor que existe sem questionar sua existência.
Logo em seguida, com a postura altiva e o olhar sereno de quem contempla a eternidade,
Ricardo Reis aproximou-se. Sua voz, calma e medida, ecoou a sabedoria dos antigos.
Reis: Pessoa, que os deuses te concedam a serenidade de aceitar o destino, sem a vã ânsia
de o moldar. Que este novo ciclo te traga a virtude da indiferença perante o transitório. Minha
palavra, pois, é Equilíbrio. Que a tua alma encontre a justa medida em tudo, como os antigos
ensinavam.
Por fim, com a energia inquieta e o brilho febril nos olhos, Álvaro de Campos irrompeu, sua
voz um misto de entusiasmo e melancolia, a modernidade em pessoa.
Campos: Ah, Pessoa! Mais um ano, mais um turbilhão de sensações, de máquinas, de portos e
de almas! Que a vertigem da vida te embriague e te lance em novas e grandiosas odes ao nada
e ao tudo! Que a tua existência seja um navio a singrar mares desconhecidos! Minha palavra,
meu caro, é Excesso. Que vivas e sintas tudo, até o limite da exaustão, e além!
Fernando Pessoa, ouvindo cada um, sorriu com uma ternura quase paternal. Cada palavra,
cada desejo, era um espelho de si mesmo, fragmentado e, ainda assim, inteiro. A pluralidade de
sua alma se manifestava ali, à mesa do café, sob o olhar atento de um observador.
Narrador: E eu, que vos observo de um futuro que é o vosso presente, sinto a gratidão
transbordar. Fernando Pessoa, poeta da minha alma, maior influência na minha história, a ti,
que foste muitos para seres tão singular, o meu mais profundo agradecimento. Por me
ensinares que a complexidade é a mais bela das verdades, e que a poesia reside na
capacidade de sentir o mundo em todas as suas vozes. Feliz aniversário, Mestre. Que a tua
obra continue a ser um farol para todos os que buscam a beleza na fragmentação do ser.
Ao mestre, feliz aniversário
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