Aloísio Lobo
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DARK HORSE: A PRÉ-ESTREIA


Por: | 15/06/2026


  Quem chegasse à Fazenda Três Pneus, no estado de Santa Katreich, poderia jurar que estava diante de um festival internacional de cinema. Havia fila, credenciais, refletores e até críticos especializados.

Só não eram críticos de cinema.

Eram especialistas em leilão de gado.

    Em vez de discutir fotografia, analisavam dentição.

Em vez de comentar roteiro, avaliavam arrobas.

Em vez de perguntar sobre a profundidade psicológica dos personagens, queriam saber se o protagonista rendia boa carne de segunda.

    A ocasião era histórica: a pré-estreia de Dark Horse, a cinebiografia do célebre Estagiário de Ditador, figura que sonhava comandar uma nação, mas acabou matriculado em cursos intensivos de direito penal do Complexo de Reeducação da Papuda.

O cinema não possuía hall de entrada.

Nem foyer.

Nem tapete vermelho.

Possuía uma porteira.

   Quem apresentasse convite recebia um fardo de capim e era encaminhado ao curral VIP.

Os mais influentes ganhavam capim tifton.

Os apoiadores comuns ficavam com braquiária.

A ausência de pipoca foi recebida com entusiasmo.

— Finalmente uma comida patriótica! — berrou um espectador enquanto ruminava.

    Ao lado dele, outro mantinha um celular equilibrado sobre a cabeça.

— Estou tentando contato.

— Com quem?

— Os extraterrestres.

— E responderam?

— Ainda não. Mas apareceu propaganda de ração.

Era um sinal.

A multidão aplaudiu.

O problema surgiu quando descobriram o título do filme.

Dark Horse.

Cavalo.

Cavalo?

  A revolta espalhou-se pelo estacionamento de tratores.

— Como assim cavalo? — protestou um veterano da militância pecuária.

— Sempre nos chamaram de gado!

— Exatamente!

— Então o filme deveria ser Dark Ox!

— Ou Boi das Trevas!

Alguns exigiram uma CPI Pecuária.

Outros defenderam um boicote ao equino.

Um grupo mais radical afirmou que o cavalo era uma infiltração comunista.

A discussão só terminou quando um pastor improvisado subiu num monte de esterco e anunciou que tudo fazia parte de uma estratégia quântica para enganar os inimigos.

A plateia ficou satisfeita.

Afinal, explicações absurdas sempre tiveram enorme prestígio naquele ambiente.

Quando as luzes se apagaram, instalou-se um silêncio reverente.

Parecia uma sessão de arte.

Mas havia um detalhe.

Nas salas de cinema convencionais, o cheiro predominante costuma ser o da manteiga da pipoca.

Ali era outro aroma.

Uma combinação complexa de curral, fertilizante orgânico e nostalgia medieval.

O contraste era fascinante.

Na tela, tentava-se exibir arte.

Nas arquibancadas, celebrava-se a ignorância como patrimônio cultural.

A arte pede dúvida.

O curral ideológico exige certeza.

A arte gosta de perguntas.

O fanatismo prefere mugidos.

A arte abre janelas.

O obscurantismo constrói cercas.

 Enquanto isso, os financiadores da produção circulavam discretamente pelos bastidores, sempre cercados de advogados, contadores e assessores especializados em transformar explicações difíceis em notas oficiais ainda mais difíceis.

O dinheiro parecia possuir uma qualidade quase mágica.

Ninguém sabia exatamente de onde vinha.

Mas todos garantiam saber para onde ia.

E ia muito.

A sessão terminou sob aplausos emocionados.

Alguns espectadores choraram.

Outros rezaram para os pneus estacionados ao lado dos tratores.

   Um deles jurou ter recebido uma mensagem intergaláctica confirmando que o filme seria indicado ao Oscar Rural de Melhor Ficção Agropecuária.

Ao deixar a fazenda, os críticos-leiloeiros divulgaram suas avaliações.

— Excelente musculatura narrativa.

— Boa cobertura de pelo dramático.

— Roteiro com rendimento de carcaça acima da média.

Foi um sucesso.

Talvez não para o cinema.

Talvez não para a história.

  Mas certamente para a pecuária da imaginação política, esse lugar extraordinário onde cavalos viram mártires, pneus viram santos, celulares viram antenas cósmicas e o esterco, quando suficientemente repetido, passa a ser confundido com filosofia.


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