Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa

Outro Flávio Tavares

Por: | 15/06/2026

Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
Outro Flávio Tavares!

Flávio Tavares não é só o pintor de um realismo transfigurativo que mescla, em estranha ambientação, homens e coisas, mulheres e bichos, sombras e luzes, num estilo com assinatura própria e peculiar. Diria mesmo que Flávio Tavares é um demiurgo obsessionado pela energia das cores e pela figuração caleidoscópica dos retratos, paisagens e murais.

Nas suas telas, história e mito se fundem na sagração de uma linguagem única e numa representação do mundo e da vida em seus aspectos dialéticos e ambivalentes, onde os contrastes entre o sagrado e o profano, o real e o simbólico, o belo e o feio, o grotesco e o sublime reinam numa surpreendente harmonia.

Há um outro Flávio, contudo, perto do pintor, antes ou depois do pintor, com o pintor, no pintor, que muito me agrada. É o Flávio capista e ilustrador de livros. Digo capista, não porque pense e desenhe a capa em si, como um artefinalista, mas, sobretudo, porque, em muitas capas, o desenho é seu ou é um de seus quadros que funciona como ilustração.

Recentemente ele enriqueceu o livro de Maria Ângela Sitônio Wanderley, Esse canto é todo seu: Zacarias Sitônio, seu lugar, sua gente, com o desenho da capa e com as ilustrações internas. Estas, inscritas em rigorosa disciplina do traço, sempre em cotejo criativo com o conteúdo impresso.

Esse gesto, que une generosidade e sentido estético, tem sido marca registrada do pintor e desenhista. Talvez o caso mais emblemático dessa experiência se realize na parceria com o poeta Sérgio de Castro Pinto. Lembro-me, pela ordem, envolvendo o encontro do poema com a imagem, pelo menos, 4 títulos fundamentais: A ilha na ostra, A quatro mãos, Zoo imaginário e Brando fogo das palavras.

Mar do olhar, coletânea poética do saudoso Juca Pontes, traz também seus desenhos e ilustrações, assim como ocorre com Catálogo da vertigem humana, do também saudoso Wellington Pereira, e do livro de Rejane Vieira, A praça do meio do mundo.

Poderia citar muitos autores e autoras que tiveram o privilégio dessa parceria com o artista paraibano. A lista, decerto, não caberia no econômico espaço dessa Letra Lúdica. Entre tantos, citaria: Chico Pereira, Abelardo Jurema Filho, Ed Porto, Lúcio Lins, Carlos Anísio, Carlos Newton Júnior, e, em especial, a edição do romance Pureza, de José Lins do Rego, para a Sociedade dos Bibliófilos do Brasil.

Eu mesmo lhe devo eterna gratidão. O belo “A leitura da vida”, compõe a capa do meu livro, Os idiomas da esfinge: ensaios heterodoxos e outras leituras, assim como as ilustrações de Vamos viajar, Larinha, episódica investida na poesia infantil.

Por isso, chamo a atenção de todos, para a presença desse outro Flávio Tavares!

(Publicado ontem, 14/06/2026, em A União)


FONTE: A União - via Facebook - Acesse

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