
Há exatamente um ano escrevi que o conflito entre Israel e o Irão dificilmente terminaria através de uma vitória militar inequívoca de qualquer uma das partes. Defendi então que o cenário mais provável seria o da negociação forçada: uma situação em que o desgaste político, económico e estratégico acabaria por impor o diálogo onde a guerra não conseguira produzir uma solução definitiva.
Hoje, olhando para os acontecimentos recentes, parece evidente que foi precisamente esse o caminho seguido.
O acordo-quadro agora alcançado entre os Estados Unidos e o Irão, já formalizado eletronicamente e aguardando ratificação política definitiva, não representa o fim de todas as tensões nem a construção imediata da paz regional. Representa, isso sim, o reconhecimento de uma realidade que a guerra tornou impossível ignorar: nenhuma das partes possuía capacidade para impor unilateralmente a sua vontade sem assumir custos insustentáveis.
Após meses de confrontação, ameaças, ataques e demonstrações de força, o resultado final - que ainda não se conhece - não foi uma vitória, mas uma acomodação estratégica dos EUA. E essa acomodação produz vencedores e vencidos muito diferentes daqueles que os discursos ocidentais procuram apresentar.
O primeiro dado que emerge deste novo cenário é o fortalecimento político e geoestratégico do Irão. Durante décadas, Teerão foi apresentado pelas potências ocidentais como um actor regional que deveria ser contido, isolado e progressivamente enfraquecido. Contudo, os acontecimentos recentes parecem ter produzido um efeito inverso. Apesar dos danos sofridos, das sanções acumuladas e da pressão militar exercida sobre o regime iraniano, o país demonstrou capacidade de resistência política, militar e institucional. Mais importante: obrigou os seus adversários a negociar. Essa realidade altera profundamente a perceção regional do poder iraniano.
No Médio Oriente, a sobrevivência é frequentemente interpretada como uma forma de vitória. Ao permanecer de pé após o confronto, o Irão envia uma mensagem clara aos seus aliados e aos seus adversários: continua a ser um actor central na definição dos equilíbrios da região. É precisamente por isso que Teerão poderá emergir desta crise como a principal potência regional dos próximos anos, não necessariamente através da expansão territorial ou da confrontação militar direta, mas através da consolidação das suas redes de influência.
Os seus parceiros e aliados espalhados pelo Líbano, Iraque, Síria, Iémen e outras zonas de influência regional tenderão a reforçar a cooperação estratégica com Teerão, convencidos de que o regime iraniano demonstrou uma capacidade de sobrevivência que muitos julgavam impossível. O futuro poderá assistir a uma expansão dessa influência. Menos visível. Menos mediática. Mas provavelmente mais eficaz.
Enquanto isso, os Estados Unidos enfrentam um problema diferente. Washington conseguiu evitar um conflito regional de grandes proporções e impedir uma escalada militar que poderia ter consequências imprevisíveis para toda a economia mundial. Contudo, a forma como esse entendimento foi alcançado não deixará de produzir efeitos junto dos seus aliados tradicionais.
Muitos países da região observam agora a política americana com maior prudência. As monarquias do Golfo, diversos governos árabes e até sectores da liderança israelita perceberam que os Estados Unidos não estão dispostos a sustentar indefinidamente conflitos prolongados que coloquem em risco os seus interesses globais. A prioridade americana mudou. A contenção substituiu a confrontação. O pragmatismo substituiu a retórica. E isso significa que Washington terá de dedicar os próximos anos a reconstruir a confiança de aliados que esperavam uma demonstração mais inequívoca de apoio estratégico.
Israel encontra-se numa posição particularmente delicada. Apesar das declarações de vitória e das reivindicações de sucesso militar, a realidade política é mais complexa. A assinatura do acordo entre Washington e Teerão demonstra que a principal decisão estratégica do conflito acabou por ser tomada através da diplomacia e não da força militar. Isso limita inevitavelmente a margem de manobra israelita. Os Estados Unidos continuarão a apoiar Israel, mas procurarão simultaneamente controlar qualquer iniciativa que possa reacender uma guerra regional de larga escala.
A contenção das operações militares no sul do Líbano, a gestão da situação em Gaza e a estabilidade da fronteira síria passarão a ser elementos centrais dessa estratégia.
Em termos práticos, e com a atual administração, Washington assume cada vez mais o papel de moderador das ações israelitas. E essa realidade poderá gerar tensões políticas internas em Israel nos próximos anos. Mas se o Médio Oriente parece caminhar para uma fase de estabilização relativa, o mesmo não pode ser dito da Europa. É precisamente aqui que surge o verdadeiro problema para o G7.
Enquanto os Estados Unidos procuram encerrar ou congelar frentes de conflito no Médio Oriente, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia permanece sem solução visível. A presença de Zelenskyi na reunião do G7 não representa apenas solidariedade diplomática. Representa preocupação. Representa incerteza. Representa receio.
Os governos europeus sabem que o conflito entrou numa fase de desgaste prolongado e que as perspetivas de uma solução militar decisiva são hoje extremamente reduzidas. A Rússia continua firme nas suas posições. A Ucrânia continua dependente do apoio ocidental. E a Europa continua a suportar uma parte crescente dos custos económicos e políticos associados ao conflito. O resultado é a instalação de um estado permanente de tensão.
Os cidadãos europeus vivem formalmente em paz, mas são confrontados diariamente com discursos de rearmamento, reforço militar, ameaças híbridas, riscos energéticos e cenários de conflito futuro. A guerra deixou de ser um acontecimento distante. Transformou-se numa presença constante no imaginário político europeu. Uma presença silenciosa. Mas permanente.
É esse estado latente de conflito que define hoje a realidade europeia. E é precisamente sobre essa questão que o G7 revela as suas maiores divisões. Os Estados Unidos demonstram sinais crescentes de fadiga estratégica. A Europa insiste na necessidade de manter a pressão sobre Moscovo. Alguns governos procuram endurecer posições. Outros começam discretamente a admitir a necessidade de soluções negociadas.
O resultado é um grupo que continua a apresentar uma imagem pública de unidade enquanto, internamente, acumula divergências cada vez mais difíceis de esconder.
A ausência da Rússia no G7 de onde saiu em 2022 - não resolve o problema. Pelo contrário. A sua ausência recorda diariamente que uma das maiores crises estratégicas do século XXI continua sem resposta. O G7 chega assim a esta cimeira confrontado com uma realidade desconfortável. Já não representa sozinho o centro do poder económico mundial. Já não controla sozinho os mecanismos da influência global. Já não consegue definir sozinho as regras da ordem internacional.
O crescimento dos BRICS, o fortalecimento de potências regionais e a emergência de novos centros de decisão alteraram profundamente a estrutura do sistema internacional. O mundo tornou-se multipolar. E o G7 ainda procura adaptar-se a essa realidade.
Por isso, a questão fundamental não é saber se a reunião produzirá mais uma declaração conjunta. A verdadeira questão é saber se os seus membros conseguem ainda encontrar uma visão estratégica comum. Tudo indica que não. Os Estados Unidos olham para o Indo-Pacífico. A Europa continua presa à Ucrânia. O Médio Oriente reorganiza-se em torno de novos equilíbrios. E as potências emergentes ganham espaço em praticamente todos os continentes.
O acordo entre Washington e Teerão poderá ficar para a História como o símbolo dessa transformação. Não porque tenha terminado um conflito. Mas porque demonstrou que o mundo já não funciona segundo as lógicas unipolares que dominaram as últimas décadas.
Enquanto o Irão emerge como uma potência regional reforçada e os novos blocos procuram afirmar a sua influência, o G7 parece cada vez mais consumido pelas suas próprias contradições. E talvez seja precisamente essa a maior conclusão deste momento histórico.
Os desafios do Ocidente já não vêm apenas de fora. Começam, cada vez mais, a surgir dentro da própria aliança que durante décadas liderou o mundo.
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