
Dizem que a diplomacia é a arte de dizer "talvez" quando se pensa "não". Mas, em Evian, decidiu-se que era também a arte de vestir os líderes personificando a sua própria realidade.
Trump, só podia estar de chapéu de cowboy enterrado na cabeça simbolizando a América profunda. Alguns comentaram que o verdadeiro desafio dos Estados Unidos era aprender a distinguir entre uma aventura de western e uma intervenção internacional. O próprio Trump disse que tinha abandonado as "coboiadas", mas ninguém conseguiu perceber se falava de política externa ou do mercado das tarifas alfandegárias.
Ao lado, Macron vestido de Obélix, era o "gaulês irredutível". O fato assentava-lhe surpreendentemente bem. Ofereceu vinho aos colegas, explicando que a França continuava a ser um farol da civilização, da gastronomia e do bom gosto. Ninguém teve coragem de lhe recordar que, ainda há poucos anos, o país acumulava défices com a mesma dedicação com que produz Bordeaux. Macron respondia que o vinho melhora com a idade; as contas públicas, nem sempre.
Narendra Modi apareceu sem necessidade de qualquer transformação. O seu traje tradicional já parecia pronto para a ocasião. Enquanto os restantes se equilibravam entre o folclore e a caricatura, Modi observava a cena com a serenidade de quem representa uma potência que cresce tão rapidamente que já ninguém sabe se está a chegar ao futuro ou se o futuro está a chegar à Índia.
Lula da Silva surgiu coberto de lantejoulas de Carnaval. Brilhava tanto que alguns jornalistas tiveram dificuldade em regular as câmaras. O presidente brasileiro sorria, explicando que o Brasil tem o raro talento de organizar uma festa mesmo quando a economia, a política e o futebol decidem complicar a vida ao mesmo tempo. Afinal, poucos países conseguem transformar crises em samba com tanta elegância.
Ursula von der Leyen vestia um dirndl bávaro impecável. Parecia pronta para servir cerveja numa Oktoberfest diplomática. Aliás, nem tem categoria para mais do que isso, mas "alguém" a colocou com um estranho poder de decidir a vida da UE. Os alemães aprovavam esta imagem, embora recordassem que a Alemanha já não atravessava os tempos de crescimento imparável de outrora. Ainda assim, se existe um povo capaz de enfrentar uma desaceleração económica com um plano de 300 páginas e sete anexos técnicos, é certamente o alemão.
António Costa, representando as instituições europeias, envergava um traje de campino ribatejano com barrete verde. A escolha parecia adequada: durante anos conduzira governos, partidos e negociações europeias com a mesma calma com que um campino conduz uma manada de touros. E enfiou o barrete várias vezes.
O representante canadiano estava vestido de lenhador das florestas do Norte. Robusto e tranquilo. A imagem encaixava perfeitamente num país que tenta convencer o mundo de que é diferente dos Estados Unidos enquanto partilha com eles a maior fronteira terrestre do planeta mas que treme de medo pelas consequências.
O primeiro-ministro japonês surgiu de quimono tradicional, impecavelmente alinhado. Enquanto os outros discutiam tarifas, alianças e défices, ele parecia mais preocupado em não vincar a roupa. O Japão continuava a demonstrar ao mundo que é possível combinar robôs futuristas, comboios supersónicos e tradições com séculos de existência sem achar que existe qualquer contradição nisso.
O representante britânico escolheu um kilt escocês. Alguns ingleses torceram o nariz, alguns escoceses também, o que significava que a tradição britânica estava a ser respeitada. Depois do Brexit, ninguém tinha muita certeza sobre a identidade nacional ideal, mas todos concordavam que o humor continuava a ser uma das principais exportações do Reino Unido.
Dos outros é melhor nem falar, não vá eu acertar ou exagerar a dose. Dos resultados da cimeira espera-se algumas decisões que deixem tudo ficar pouco diferente. Como aliás é habitual. Quando se junta a vontade de comer com a vontade de ser comido, normalmente o resultado é uma indigestão no dia seguinte e um tratamento a água das pedras.
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