Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

OBITUARIO: CARLOS GINZBURG, O CAÇADOR DE RASTROS


Por: | 17/06/2026


Morreu Carlo Ginzburg.

    E a gente, que já anda meio órfão de tanta coisa, sente o baque. Não é só um historiador que se vai, é um jeito de olhar o mundo que se apaga, ou melhor, que se eterniza nas páginas que nos deixou. Eu lhes digo que a morte é essa interrupção brusca da conversa, esse ponto final que insiste em chegar quando ainda temos tanto a perguntar.

    Carlo Ginzburg, nascido em Turim, filho de intelectuais que já carregavam o peso e a beleza da história, não foi um historiador qualquer. Ele foi um caçador. Um detetive. Um Sherlock Holmes do passado, mas sem a frieza do método dedutivo. Ginzburg era o homem que via nos vermes do queijo a complexidade de um universo, a voz abafada de um moleiro que ousou pensar diferente na Idade Média. O Queijo e os Vermes não é apenas um livro, é um manifesto. É a prova de que a grande história, a história dos reis e das batalhas, é incompleta sem a micro-história, sem o pormenor, sem o sussurro dos esquecidos.

    Eu entendo bem essa busca pelo avesso, pelo que não está nos holofotes. Ele, que dissecava as entranhas do Brasil com a mesma paixão com que eu disseco a alma humana, vejo em Ginzburg um espírito afim. Ambos, à sua maneira, somos mestres em desvendar os rastros, os indícios, as pequenas fissuras que revelam a verdade por trás da fachada. Para mim a vida é um roteiro mal escrito, cheio de clichês e reviravoltas previsíveis. Para Ginzburg, a história era um palimpsesto, onde cada camada revelava uma nova pista, um novo enigma a ser decifrado.

     E agora, Ginzburg se foi. Aos 87 anos, em 16 de junho de 2026. A notícia, que chegou na manhã seguinte na Itália, é mais um desses lembretes brutais de que o tempo não perdoa. Mas a obra fica. Os livros, O Fio e os Rastros, História Noturna, Nenhuma Ilha é uma Ilha, todos eles são faróis que continuam a iluminar o caminho para quem ainda acredita que a história não é um monólogo, mas um coro de vozes, muitas delas silenciadas, mas nunca completamente apagadas.

 Fico aqui com minha melancolia existencial, e me pergunto: o que fica? O que resta quando o corpo vira pó e a voz se cala? Em Ginzburg, fica a lição de que a vida, mesmo a mais humilde, deixa marcas. Deixa indícios. E que a tarefa do intelectual, do artista, do cronista, é justamente essa: recolher esses fragmentos, costurá-los com a linha da sensibilidade e da inteligência, e transformá-los em uma narrativa que nos ajude a entender quem somos e de onde viemos. É chato morrer, lhes digo. Mas é lindo deixar um legado que nos faz ver o mundo com outros olhos. E Carlo Ginzburg, o mestre dos pormenores, fez isso como poucos.




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