Aloísio Lobo
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Aloísio Lobo

ONDE MORAM OS SONHOS NÃO VIVIDOS


Por: | 17/06/2026


   Existe, em algum lugar dentro de nós, uma espécie de sótão.

Não aquele de madeira antiga, com telhas rangendo ao vento e janelas cobertas de poeira. É outro. Um sótão invisível, construído de tempo, lembranças e pequenas escolhas.

Ali guardamos os sonhos que não aconteceram.

    Há uma bicicleta encostada num canto. Foi comprada para uma viagem que nunca saiu do mapa. Ao lado dela, repousa um violoncelo sem cordas. Seu dono prometeu aprender a tocá-lo quando a vida desacelerasse. A vida, porém, especializou-se em acelerar.

Num baú de tampa pesada dormem cartas jamais enviadas. Algumas carregam declarações de amor. Outras, pedidos de desculpas. O papel amarelou esperando uma coragem que perdeu o trem.

    Mais adiante, pendurado num cabide enferrujado, está o paletó do escritor que nunca escreveu o romance, da ator que nunca subiu ao palco, do aventureiro que nunca atravessou nada. Curiosamente, as roupas continuam novas. Sonhos não envelhecem; apenas acumulam silêncio.

Há também uma coleção de cadernos. Em cada página, um começo.

"Um dia vou..."

E a frase para ali.

O sótão está cheio de frases interrompidas.

    Às vezes subimos a escada sem perceber. Basta encontrar uma fotografia, ouvir uma música esquecida ou sentir o cheiro de uma tarde distante. Então abrimos a porta devagar e a poeira dança na luz.

Os sonhos nos olham.

Nenhum deles parece zangado.

Sonhos abandonados são criaturas estranhas. Não cobram. Não gritam. Apenas permanecem sentados, esperando que alguém se lembre de seus nomes.

E é nessa hora que descobrimos algo curioso.

Nem todos os sonhos guardados são tristezas.

Alguns precisavam ficar ali.

    A viagem que não aconteceu abriu caminho para outro destino. O amor não vivido ensinou a reconhecer o amor que veio depois. A porta fechada acabou conduzindo a uma janela inesperada.

O sótão não é apenas um depósito de fracassos. É também um museu dos caminhos que não seguimos.

Cada objeto esquecido conta uma história que deixou de existir para que outra pudesse nascer.

Ainda assim, de vez em quando, um sonho desperta.

Espreguiça-se entre as caixas, limpa a poeira dos ombros e desce as escadas sem pedir licença. Pode surgir aos setenta anos, aos oitenta, ou numa manhã qualquer em que o coração decide não obedecer ao calendário.

Porque alguns sonhos têm a estranha mania de sobreviver.

Fingem-se de mortos durante décadas, mas continuam respirando baixinho no escuro.

Talvez por isso seja bom visitar o sótão de vez em quando.

Não para lamentar o que ficou para trás.

Mas para abrir as janelas.

Quem sabe um pouco de luz alcance aquelas velhas caixas e revele que certos sonhos não estavam guardados.

Estavam apenas esperando a estação certa para florescer.   Obs.: Pintura de Flávio Tavares ( foto)


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