Belarmino Mariano
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GEOPOLÍTICA EM LÍNGUAS ESTRANHAS


Por: | 17/06/2026

"Ainda que eu falece a língua dos homens, e falace língua dos anjos, sem amor, eu nada seria"

  O compositor brasileiro Renato Russo, compôs a música "Monte Castelo", em que ele extraiu o versículo  de Paulo (1 Coríntios 13:1), misturado com o famoso soneto "Amor é fogo que arde sem se ver" do poeta português Luís de Camões. Incrível como a música e a poesia podem despertar reflexão, espiritual, religiosa e emocional.

 Com a curiosidade de professor de geografia, instigado por perguntas aos estudantes, se eles sabem o que é ser Pentecostal e neopentecostal em suas igrejas,  confesso que nem católicos e nem evangélicos souberam responder ao certo, inclusive membros da tradicional Igreja Assembléia de Deus.

  Quando Renato Russo, extraiu a frase "Ainda que eu falece a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria", queria entender o que isso representava para as pessoas que se dizem cristãs?

Em Atos 2 (Novo Testamento), existem os primeiros relatos em que os apóstolos falaram em outros idiomas humanos. Ainda no Novo Testamento, nas cartas de Paulo (1Coríntios), o apóstolo comenta sobre a "língua dos anjos", como se existisse um código linguístico para conversar com Deus e os anjos poderiam ser intermediários diretos 

 Assim nasceram as interpretações de que seria possível  "falar em línguas estranhas". Isso  virou moda em templos pentecostais dos EUA, a partir de 1901/1906, como sendo uma nova teologia, conduzida pelo contato direto com o espírito santo. 

Como em ondas devocionais, um novo grupo evangélico cristão, surge das várias denominações e seitas cristãs. Os EUA, que já representavam o maior número de segmentos do cristianismo protestante, passaram a alimentar a ideia de espalhar a palavra de Deus, através de "línguas estranhas". 

   Um pequeno trecho bíblico, se referindo a uma espécie de milagre do início do cristianismo, se transformou na maior teologia, em que a oração pessoal eleva o fiel a falar com Deus em línguas misteriosas e que não exige interpretação, pois só Deus e os anjos entendem. A ideia não é interpretar a Bíblia Sagrada, mas apenar observar como, as diferentes interpretações para um simples trecho, podem gerar fanatismo e abuso religioso.

   A ideia de "Pentecoste", como festa religiosa, pode ser encontrada em diferentes civilizações, em especial para agradecer e festejar as boas colheitas. Tanto na civilização ocidental, quanto na oriental e também entre os povos pré -colombianos, sempre houve as festas das colheitas. 

   Desde os gregos, romanos, hebreus, egípcios, hindus, chineses, Incas, Maias, Astecas entre outros, surgiram os rituais devocionais para agradecer as colheitas da uva, olivas, trigo, arroz, aveia, milho e outros grãos.

   Para os judeus, pentecoste era a festa da boa colheita do trigo. Depois foi adaptado pelos primeiros cristãos, o calendário de pentecoste era relativo aos 50 dias após a páscoa. Momento relacionado à celebração do Corpo de  Cristo (Corpus Christi). A Eucaristia, que representa a presença de Jesus Cristo (símbolo do pão e do vinho), consagração da vida em Cristo.

    De acordo com os Atos dos Apóstolos, os discípulos receberam o Espírito Santo através de sinais extraordinários, ganhando coragem e o dom de falar várias línguas para espalhar o Evangelho. Se formos para Velho Testamento, em Jó, existem passagens sobre a "língua dos anjos".

    Parece até que os escritos do Novo Testamento, enviado de relações ao judaísmo do Velho Testamento, foram tentativas frustradas de convencer os judeus sobre  a presença sagrada de Jesus enquanto o filho de Deus.

  Como não conseguiram, foram colando a sua realidade religiosa romana, fragmentos proféticos do Antigo Testamento, dando a entender que Jesus Cristo era o filho de Deus, que nasceu de uma virgem e sacrificou como o cordeiro de Deus para retirar os pecados do mundo.

    Parece que os apóstolos do Novo Testamento (Paulo, Marcos, Mateus, João Batista, entre outros), estão tentando convencer Judeus, Romanos, Gregos e outros povos, sobre a verdade sacra de Jesus Cristo, mas sem a obtenção clara de êxito. Pois em quase todos os lugares, o cristiano foi introduzido através da imposição da força e do colonialismo cultural.

    Sempre tive a curiosidade de entender aquelas vestes vermelhas dos padres, bispos, e celebrantes das palavras de Deus. Parece até que simbolizam o fogo, a chama divina. Esse fogo das velas acesas, como se representasse a própria língua de Deus e a pomba branca da paz, como sendo a maternidade do Espírito Santo, voando sobre a cabeça dos fiéis, enquanto os incensos e o vento espalham a fumaça de mirra e outras essências, representasse o sopro da vida e a línguagem do amor.

Como disse o poeta Luís de Camões, "Amor é fogo que arde sem se ver", estivesse falando apenas do amor puro? Nesse sentido, segue Renato Russo e Monte Castelo: 

Ainda que eu falasse a língua dos homens /E falasse a língua dos anjos /Sem amor eu nada seria

É só o amor, é só o amor /Que conhece o que é verdade /O amor é bom, não quer o mal /Não sente inveja ou se envaidece

O amor é o fogo que arde sem se ver /É ferida que dói e não se sente /É um contentamento descontente /É dor que desatina sem doer

Ainda que eu falasse a língua dos homens /E falasse a língua dos anjos /Sem amor eu nada seria

É um não querer mais que bem querer /É solitário andar por entre a gente /É um não contentar-se de contente /É cuidar que se ganha em se perder

É um estar-se preso por vontade

 /É servir a quem vence, o vencedor /É um ter com quem nos mata a lealdade /Tão contrário a si é o mesmo amor

Estou acordado e todos dormem

Todos dormem, todos dormem/Agora vejo em parte /Mas então veremos face a face

É só o amor, é só o amor

Que conhece o que é verdade

Ainda que eu falasse a língua dos homens /E falasse a língua do anjos /Sem amor eu nada seria..

  Parece que Russo estava inspirado, estivesse querendo compreender essa tal "língua estranha dos anjos" e pode ter deixado uma grande mensagem,  até certo ponto, a ideia de amor como algo sagrado.

  São muitos símbolos do sagrado, mas a palavra de Deus, "as línguas estranhas", é uma espécie de fanatismo religioso, inclusive como a ideia de nascimento da Igreja Católica Apostólica Romana.  Assim, séculos depois do início do Protestantismo de Martin Lutero, os evangélicos dos EUA, no início do Século XX, retomaram a ideia  Pentecostal de resgate das "línguas estranhas".

  Para a Geopolítico de dominação pela fé, os movimentos religiosos protestantes, saíram dos EUA, em diferentes missões pelo mundo, desembarcando nos países da América Central e do Sul e na Ásia e Oceania. Uma das armas escolhidas era o transe espiritual em que repentinamente, o pastor ou o pregador, incorporava o espírito santo e começava a falar as línguas estranhas.

   Relatos históricos confirmam que essa experiência foi um desastre de comunicação religiosa, em especial na Índia, China, Indonésia, Japão e Coreia. A dificuldade com os idiomas locais e as manifestações de uma minoria falando em "línguas inelegíveis" foi vista como loucura e alucinação. 

  Na América Latina, no começo do século XX, tivemos uma grande onda de evangelismo vindo dos EUA, entre os grupos, se destacaram: "Assembléias de Deus", "Congregação Cristã no Brasil" e "Igreja do Evangelho Quadrangular". Já criadas no Brasil, se destacam a "Igreja Pentecostal Deus é Amor" e "O Brasil Para Cristo".

  Na mesma linha surgiram novas denominações como: os Neopentecostais: Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Mundial do Poder de Deus e Igreja Internacional da Graça de Deus.

Estas igrejas se transformaram em verdadeiros impérios religiosos e para além das ideias de "dialogar diretamente com Deus", desenvolveram novos fundamentos como "as teologias da prosperidade", onde os fiéis ofertam bem a Deus e receberão em dobro. É uma experiência puramente material, onde você pode colocar dinheiro em uma "fogueira Santa" e quanto mais você colocar, mais Deus te dará de volta.

 Os movimentos neopentecostais, deram continuidade às ideias pentecostais de "falar em línguas estranhas", de curas milagrosas e da realização de desejos dos fiéis, como cura de pessoas doentes, "operações espirituais", e incêndios espirituais com muita música, danças e alaridos divinos, com transe coletivo, imposição de mãos dos pastores e bispos sobre os fiéis.

  Nesse sentido, muitos católicos que já haviam migrado para as igrejas  evangélicas históricas, dessa vez, migraram para as congregações neopentecostais. Nesse jogo de poder religioso, perderam fiéis os católicos e os protestantes tradicionais.

Bem antes dos neopentecostais a grande onda evangélica em países da América Latina de tradições católicas, foram chegando em países como o Brasil de maneira crescente, se instando tanto em áreas urbanas quanto em áreas rurais aos exemplos: 

1) Igreja Presbiteriana - baseada na teologia reformada (calvinismo). Enfatiza a soberania absoluta de Deus e a eleição divina; 

2) Igreja Batista - enfatiza a autonomia da igreja local e o batismo por imersão de pessoas adultas ou que tenham discernimento; 

3) Igreja Metodista - fundamenta-se na teologia arminiana, enfatizando o livre arbítrio, a graça de Deus acessível a todos e uma forte busca pela santificação prática; 

4) Igreja Luterana - baseada em Martinho Lutero, foca na salvação unicamente pela graça e pela fé, valorizando a justificação do pecador.

  A própria igreja católica tentou reagir à fuga de fiéis, introduzindo um movimento de "renovação carismática", com rituais alegres, liberdade para os jovens católicos organizarem conjuntos musicais, para cantarem durante as missas, com missas embaladas por padres cantores, orações festivas, toques alegres entre os fiéis, hinos religiosos com palmas, imposições de mãos e braços e até movimentos de dança ou louvação repleta de alegria ou da "graça de Deus".

  Música de compositores populares com teor religioso passaram a ser ouvidas em meio às missas. Ao exemplo de Roberto Carlos, Renato Russo e outros. Os padres compositores, a música gospel, as missas campais e as visitas papais aqueceram o movimento carismático na América Latina.

  Enquanto isso, os grupos evangélicos Neopentecostais, passaram a atuar em grandes redes de TV, rádio e internet. Utilizando os meios de comunicação e plataformas digitais para expôr o interior de suas igrejas, lotadas e gigantescas, onde pastor é confundido como "Pop Star", fazendo pregação agressiva, falando abertamente em dízimo, oferecendo caneta ungida, feijão ungido, vassoura ungida, recebendo ofertas do fiel, diretamente pelo cartão de crédito e o usando cada vez mais o velho testamento como se fosse uma sinagoga judaica.

  Nesse momento estas igrejas neopentecostais já estão seguindo uma nova abordagem religiosa. Agora falam diretamente sobre o envolvimento político e pregam a "teologia do poder de Deus" em todas as esferas de poder político, econômico e sociocultural. 

     Esse é o nosso atual estágio e por incrível que pareça, todo esse movimento está diretamente vinculado às doutrinas norte americanas de que é vontade de Deus que os EUA governem todo o mundo ("Doutrina Manifesta") e a Doutrina de Segurança Nacional, em que as Américas são dos EUA.

A dominação pela fé, que o império romano introduziu com a criação da Igreja Católica Apostólica Romana, que se dividiu com a ortodoxia e depois, com o protestantismo (Luterano, Calvinista e Anglicano). 

  Depois , mesmo, com centenas de denominações, todas apostam em fiéis como ovelhas mansas e obedientes aos seus padres ou pastores, servos e tementes a um Deus que "fala em línguas estranhas" e só salvará alguém milhares de anos, após a sua morte e em um Grande Tribunal Chamado de "Juízo Final. Será que uns poucos iluminados aprenderam a falar com Deus, mesmo sem entender o que dizem?


 Imagens das redes sociais. Fontes:  Henrique Caldeira, História Estranha (Youtube); Renato Russo (Letras); Bíblia Sagrada on-line.


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