Renato Uchoa
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Renato Uchoa

DOIS EMPATES E UMA VITÓRIA


Por: | 18/06/2026


     Chica Barrosa, a rainha negra do repente, perambulou nas cantorias no final do século XIX e início do século XX, nos terreiros, praças, fazendas, cercadas ou não, arremessando pra quem quisesse ouvir os traços autênticos da cultura nordestina: desafiando tudo pela frente. Filha de João Francisco dos Santos e Josefa da Conceição Silva, alforriados, do quilombo Mãe D’ água, nas cercanias da cidade de Pombal, na Paraíba.

     Iranir Medeiros, poeta, escritor paraibano, entre outras obras, resgata Chica. No livro: Chica Barrosa, A Rainha Negra do Repente. E dela disse: ‘Falar da cantadeira Chica Barrosa...é falar de versos de improvisos, de desafios, de poesia popular, de cultura genuinamente nordestina, cuja tradição exige rapidez de raciocínio, rima, métrica, cadência, ritmo, linguagem poética e criativa, imagem, oração, além do manejo de um instrumento (pandeiro, viola, rabeca, sanfona), voz, toada e melodia. Chica foi imbatível nos desafios.

       Em um dos grandes, desafiada por um famoso do repente, Neco Martins, que soltou a voz “Ô Barrosa, me responda, Seja por mal ou por bem, Em cima daquela serra, quantos pés de capim tem”? Chica respondeu: “Se a seca não matô, Ou os bichos não comeu, Em riba daquela serra, Tem os capins que nasceu”. A genialidade de Chica banhou de alegria a Paraíba, Rio grande do Norte, Ceará...

       Em um duelo que deu empate, com um cantador do Ceará. Chica diz no verso: “Sete vezes me casei, Sete homens conheci, Inda hoje permaneço, Tão virgem como nasci”. O cantador também era dos bons, sem cerimônia de quem estava acompanhando a peleja, explode: “O seu caso é muito raro, E só assim a gente explica, Ou a senhora não tem buceta, Ou esses homens não tem pica”

     Outro empate, no duplo sentido. Não há como negar, a esquerda brasileira, na quase totalidade, jogou a toalha, viciada em voto, desde de a década de 1990, vem lutando para gerenciar o Estado Capitalista novamente, na fórmula mágica todo mundo tem lucro. Bancos, grandes empresas, agronegócio..., e uma pontinha, que é enorme, para a população que saiu da miséria absoluta, dos grotões e dos condomínios debaixo das pontes..., e já voltaram, desde o golpe de 2016. Um festival de políticas públicas no Governo Popular Lula/Dilma contemplando milhões na educação, saúde, moradia, emprego e renda...

     Mas, o sistema capitalista (modo de produção) não é uma instituição de caridade. A contradição fundamental opõe os trabalhadores que efetivamente produzem a riqueza, a uma minoria que vive do ‘ócio benéfico’ a alma. As camadas dominantes são parasitárias por natureza, e vivem à custa do trabalho de milhões de explorados/as, que não detém os meios de produção, apenas vendem o trabalho em um leilão. Controlado a ferro e fogo pelas elites dominantes, QUE TÊM nos curais, como gado, os aparelhos repressivos do Estado.

      Ganhar as eleições em 2022, festa e salgadinhos.  Mas, o adágio popular, quando a esmola é grande o cego desconfia. Ninguém desconfiou que durante a gestão popular Lula/Dilma, nas entranhas do Palácio do Planalto, os conspiradores faziam a festa. Não foi por falta de avisos de nós poucos, desde 2012. Não é mais razoável ser devoto de pedir todos os dias, pela manhã, a benção a Governabilidade. Não é mais razoável a esquerda entupir o Palácio, os Ministérios, Instituições importantes, novamente, com a gangue de traidores, que com certeza ocuparão as poltronas, o lago, a cozinha como se estivessem nas casas deles. Lula ganhar as eleições em 2026, na fórmula das composições anteriores, ao invés da formação política dos trabalhadores/trabalhadoras do campo e da cidade, para defender o “Estado Capitalista Democrático”, vai ocorrer um empate, no duplo sentido: empate e empata.

     Uma vitória. A Polícia Federal (em número de oito), em maio de 1992, invade a aldeia Coquinho, operação para encontrar maconha, sem autorização da Funai, e o coro come. Armados até nos dentes, praticam todos os tipos de violência. Um relato de um índio a época "Algemaram os homens, bateram nas mulheres e nas crianças".  O administrador do Posto Indígena Osvaldo Amorim afirmou “Houve violência contra os índios... Os agentes da Polícia Federal espancaram uma índia na aldeia e isso provocou a revolta dos demais Índios presentes”. Atiraram covardemente em um cachorro, a reação da tribo foi na bucha, tomaram as metralhadoras, pistolas.... Amarraram os agentes e esfregaram o cachorro morto em todos eles, até que pedissem desculpas.

     O vídeo da época é estarrecedor, uma visão assustadora, o pânico banha o rosto dos agentes, os olhos não negam. O povo começa a comer arroz a semana inteira com o perfume de sardinha marca Coqueiro, que não é da Tribo, e não aprendemos nada com ela, com eles, os verdadeiros donos da terra. 


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