Hildeberto Barbosa Filho
Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: hildebertopoesia@gmail.com
Solha nos 4 elementos
I
Tudo começou com Trigal com corvos. Ali se inaugurava uma técnica, uma metodologia, um procedimento poético. Salvador Dali criou o método crítico-paranóico para conduzir suas façanhas pictóricas e discursivas. A vida secreta do pintor espanhol e Diário de um gênio trazem passagens deliciosas que comprovam a efetividade estratégica de seu modo de compor. Com Waldemar José Solha, as coisas não são diferentes. Solha criou, com a série de livros-poema ou poemas-livro que vem escrevendo e publicando, um método que chamaria de prosaico-poético ou poético-prosaico, onde a unidade de concepção se lastreia na pluralidade dos fragmentos. Conteúdo e forma, se é que tais instâncias do texto literário podem ser separadas, se fundem num estilo caleidoscópico, erudito e espiralado. Vejo, em seus escritos, uma espécie de ansiedade do absoluto, uma vontade desesperada de abarcar tudo, um debate permanente e dilacerado com a herança dos conhecimentos, uma convicção subterrânea de que a palavra pode nomear, sim, o mistério do universo, porém, sem dele nunca dar conta.
II
Sobre as obras da terra, seu novo livro, recupera e refina o mesmo tom e a mesma perspectiva dos investimentos anteriores. Salvo engano, eu disse, em versos do poema “A terra”, do livro Caligrafia das léguas (1999), que “Só a terra ∕ dura para sempre”. A terra, que é madre, origem, Gaia de todos os saberes e de todos os destinos. Solha a elege como personagem central de sua saga poética, dando-lhe um estatuto proeminente na ampla e variada pauta de sua sinfonia. A propósito, observem-se as subdivisões musicais que regem o movimento cadenciado do poema (os Allegros: Ma non tropo, con brio, molto vivace e Andante maestoso), demarcando os andamentos de seu ritmo. Palavra e música sempre se cruzaram na topografia textual deste sorocabano-paraibano. Cantata para Alagamar pode ser vista como um emblema vivo dessa vertente. Mas, no poema, as rimas, as aliterações, os paralelismos, os cortes vocabulares, os enjambements, os ecos, assonâncias, dissonâncias e muitos outros ingredientes da camada acústica da língua comparecem para garantir a sua musicalidade, pois, o que é a poesia, senão palavra com música.
III
Mais uma vez, a descrição, a narração e a reflexão se associam, na voz lírico-épico-dramática de Solha, convocando o leitor para mais uma viagem em torno da história, da cultura, dos grandes e dos pequenos acontecimentos. A estrofe inicial como que prepara o terreno das intensas experiências do homem sobre a terra ou da terra, condicionando suas descobertas, seus inventos, seus fracassos e vitórias. “Programados para paixões (que geram as gerações), ∕ há mais da espécie do que seres humanos ∕ em nossos pais e avós, ∕ e em nós”. Eis a dualidade entre finito e infinito, donde talvez decorra a angústia que preside a odisseia do ser. Do ser do homem e do ser da linguagem, na medida em que, tanto aquele quanto esta (esta sendo aquele e vice-versa) parecem precários e insolúveis. Leituras, personagens históricos e figuras anônimas; episódios decisivos, a arte, a ciência, a filosofia, tudo se mistura sob o olhar vigilante da terra enquanto símbolo maior da criação. Terra que se transmuta em texto, texto que se transforma em intertexto, paratexto, arquitexto.
IV
Sei que a terra é um dos quatro elementos naturais. Sei que Solha sabe isto. A terra, portanto, nunca está sozinha. Com ela convivem, em intrínseco conúbio, a água, o ar e o fogo. Imagino, doravante, mais três poemas-livro ou três livros-poema, na mesma metodologia do critério poético-prosaico ou prosaico-poético, evocando as incidências semânticas desses férteis personagens. Gaston Bachelard tem pistas maravilhosas para o repouso e para os devaneios de uma nova gramática expressiva. Somente Solha, com seu arsenal de conceitos, de imagens e de fórmulas, é capaz, entre nós, de sondar o mistério dessa possibilidade. Não lhe faltam o vírus da loucura criativa, o peso da erudição, a habilidade em todas as linguagens, o desejo, quase totalitário, de tudo saber, mesmo sabendo, socraticamente, que nada se sabe, a não ser que “A imortalidade, ∕ que todos sentimos, ∕ é da ∕ Humanidade, ∕ um superorganismo para o qual ainda é um sonho de Lennon o dia em que não mais ∕ existam, ∕ a nos atormentar, ∕ religiões nem nações, ∕ pelo que morrer ∕ nem matar”. Este é o fecho do poema. Todo o seu corpo, no que diz e no que oculta, me parece emoção humana convertida em emoção estética. Querer mais o quê?
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