Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

CARTÓGRAFOS


Por: | 18/06/2026


Passamos a vida desenhando mapas.

    Estendemos sobre a mesa os continentes da memória, os rios dos afetos, as montanhas dos medos, as planícies das certezas. Com paciência de antigos navegadores, traçamos rotas para dentro de nós mesmos, convencidos de que, em algum lugar, encontraremos a nascente de tudo.

 Mas a paisagem muda enquanto a desenhamos. Quando acreditamos ter delimitado uma fronteira, descobrimos que ela avançou alguns passos durante a noite. Quando julgamos conhecer a profundidade de uma enseada, percebemos que o fundo desaparece sob uma névoa antiga.

Seguimos adiante.

 Carregamos lanternas, bússolas, teorias e espelhos. Reunimos palavras para explicar o que sentimos e construimos sistemas para organizar o que somos. Ainda assim, algo nos escapa pelos dedos, como água recolhida na concha das mãos.

Pode ser que sejamos feitos também daquilo que não alcançamos.

 Contemplamo-nos como quem observa uma obra concluída. Mas, ao mesmo tempo, encontramos rachaduras onde imaginávamos mármore, desvios onde acreditávamos existir linha reta. Descobrimos, então, que a mesma criatura capaz de gestos generosos guarda pequenas coroas invisíveis sob o chapéu.

Gostamos de pensar que dominamos a própria história. Gostamos de acreditar que ocupamos o centro dela.

Mas a vida, com sua ironia delicada, frequentemente nos recorda que somos apenas personagens e leitores da mesma narrativa.

 Por vezes erguemos monumentos para as próprias virtudes. Por vezes escondemos os defeitos atrás das cortinas da justificativa.

Fazemos isso não por maldade, mas porque nascemos com essa curiosa mistura de fragilidade e orgulho que acompanha a espécie desde nossos primeiros passos.

Não há grande escândalo nisso.

Árvores crescem tortas em busca da luz.

Rios contornam pedras sem pedir desculpas.

Nuvens atravessam o céu sem a obrigação de serem perfeitas.

Também carregamos nossas curvas.

    A sabedoria não consiste em corrigirmos cada imperfeição nem em demolirmos cada traço de soberba. Reside em reconhecermos ambas como companheiras de viagem, sem lhes entregar o leme da embarcação.

Há serenidade em admitirmos que a casa interior possui cômodos arrumados e quartos onde a poeira ainda repousa.

Não para abandonarmos a arrumação.

Mas para compreendermos que a morada continua sendo nossa.

Assim seguimos.

   Cartógrafos pacientes de uma geografia que jamais se revela por inteiro, caminhando entre descobertas e enganos, entre claridades e sombras, aceitando que alguns territórios permanecerão sem nome.

Não porque nos falte inteligência.

    Mas porque certos mistérios parecem ter sido criados apenas para lembrar-nos que somos humanos. E que, às vezes, a grandeza não está em alcançarmos todas as respostas, mas em continuarmos caminhando com humildade por entre a neblina. Obs.: o mapa da foto é de Claudius Ptolomeu 


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