Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

O BANCO DOS MILAGRES


Por: | 19/06/2026


  Qual a diferença entre o desempenho de Neymar na Seleção e o golpe do Banco Master?

À primeira vista, nenhuma. Ambos prometem rendimentos extraordinários e entregam uma experiência pedagógica sobre os limites da fé.

  O Banco Master oferecia taxas tão generosas que faziam a matemática corar de vergonha. Já Neymar oferece à torcida brasileira algo ainda mais raro: a expectativa permanente. É um investimento emocional de alto risco. O torcedor aplica esperança, reinveste entusiasmo, faz aportes sucessivos de paciência e, ao final do exercício, recebe um comunicado informando que o ativo sofreu uma pequena lesão na coxa.

  O curioso é que os dois fenômenos dependem da mesma matéria-prima: confiança.

No caso do banco, havia quem olhasse os números e perguntasse: "Como isso é possível?" No caso do jogador, a pergunta é semelhante: "Como ainda acreditamos?"

A Seleção Brasileira transformou Neymar no primeiro atleta oficialmente enquadrado no regime de home office. Enquanto os demais jogadores correm, dividem bolas e levam pancadas, ele parece participar remotamente dos trabalhos. Está sempre relacionado ao projeto, aparece nas apresentações, surge nas campanhas publicitárias e, ocasionalmente, envia sinais de vida pelas redes sociais.

É uma espécie de consultor externo do futebol.

Quando a Seleção perde, sua ausência é sentida. Quando joga, sua presença também.

Os economistas chamam isso de ativo intangível.

Os torcedores chamam de outra coisa.

    Há anos o brasileiro aguarda a maturação desse investimento. A cada Copa do Mundo, surge um novo prospecto. A cada convocação, um novo relatório de desempenho. A cada lesão, uma nova renegociação dos prazos.

   Enquanto isso, Pelé, lá do alto da eternidade, deve observar a cena com a serenidade de quem entregava resultados sem precisar publicar vídeos motivacionais.

O segredo é compreender que Neymar já não é exatamente um jogador. Tornou-se um conceito. Uma startup emocional. Uma promessa em estágio permanente de captação.

O Banco Master, ao menos, precisava apresentar balanços. Neymar apresenta penteados.

  E o brasileiro, como investidor compulsivo da esperança, continua acreditando que, no próximo trimestre, no próximo campeonato, na próxima convocação, virá finalmente o retorno prometido.

Há golpes financeiros e há os de expectativa.

Os segundos costumam durar muito mais.




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