Areia de pote
Areia de pote
Areia de pote

Alta cultura nos ensaios de Ary Quintella

Por: Francisco Gil Messias | 22/06/2026

Alta cultura nos ensaios de Ary Quintella


Francisco Gil Messias

gmessias@reitoria.ufpb.br


O Quintella do título não é o avô matemático, já falecido e muito conhecido dos estudantes brasileiros em meados do século passado, e sim o neto, diplomata e fino escritor, que recentemente publicou o excelente Geografia do Tempo (Andrea Jakobsson Estúdio Editorial Ltda., Rio de Janeiro), reunião de 32 ensaios.


Esse precioso livro chegou-me há pouco pelas mãos sempre atentas de Lúcia Maia da Nóbrega e logo candidatou-se ao título de melhor do ano em minha lista de preferências. E não poderia ser diferente, pois de fato é um pequeno tesouro ensaístico e literário de pouco mais de duzentas páginas, dificilmente superável entre nós, brasileiros, nos próximos meses. Não diria que se trata de ensaios propriamente literários, no sentido de ter, teoricamente, a literatura como tema, mas são todos atravessados por ela, através da sensibilidade do autor, homem cultíssimo, de imensas leituras e ricas vivências. Ouso afirmar que os livros estão no começo, no meio ou no fim de cada ensaio, ou nas três partes ao mesmo tempo, tão impregnados de literatura, os ensaios, que fica difícil imaginar a obra sem esse componente literário fundamental. 


O autor, filho de diplomatas intelectuais, nasceu e cresceu em meio a livros, viagens internacionais, museus e concertos, condição que lhe permitiu acumular cultura e apurar o gosto artístico e cultural. Não é pouca coisa, principalmente se tomamos por base a educação recebida pela maioria das crianças e jovens brasileiros. Neste caso, o bom é que, digamos, o “privilégio” (se é que o é)  resultou em alguém muito bem formado que se colocou a serviço do país, através da diplomacia e da vida intelectual. Sem pretender estabelecer comparações, diria que ele se coloca na linha de um Joaquim Nabuco e de um Afonso Arinos de Melo Franco, por exemplo. Ou seja, homens de elite, verdadeiros patrícios, que, nos ideais e nas ações, não se encastelam em píncaros exclusivos e excludentes, e abraçam os deveres da cidadania como qualquer um. Esse Geografia do Tempo, portanto, é uma espécie de devolução à sociedade brasileira de parte do que o ensaísta conseguiu acumular culturalmente em sua vida afortunada, uma contrapartida pessoal, digamos assim. 


O livro já inicia por cima com duas apresentações primorosas: uma da jornalista Cora Rónai e outra do escritor Gustavo Nogy. São dois textos perfeitamente à altura dos ensaios que lhes seguem. É possível que sejam eles mesmos ensaios, mesmo que talvez apenas ensaiados, o que  lhes confere completa coerência com o conteúdo da obra. Independentes uns dos outros, os ensaios podem ser lidos na ordem que o leitor desejar, encontrando-se em cada um o refinamento cultural que é a marca de todos. 


Quintella desfila suas admirações literárias. Stendhal está presente em mais de um ensaio.  Num deles, o pretexto é uma visita ao túmulo do escritor no cemitério de Montmartre, Paris, e por ele ficamos sabendo que a inscrição na lápide foi alterada. É que Stendhal determinou que nela constassem três verbos na seguinte ordem: “viveu, escreveu, amou”. Entretanto, não se sabe o motivo, o primo, biógrafo e executor testamentário Romain Colomb mudou a ordem das palavras, ficando “escreveu, amou, viveu”. A partir daí, Quintella vai espalhando seus lembranças e seus comentários, como se não seguisse nenhum roteiro prévio, o que é bem da natureza do ensaio.


Noutro texto, o ensaísta discorre sobre algumas das livrarias de sua predileção, no Brasil e no mundo. Começa no Rio de Janeiro, no sebo Berinjela, atravessa a avenida Rio Branco, chega à célebre livraria Leonardo da Vinci, e vai até Ipanema, à Livraria da Travessa, para ele uma das mais charmosas da cidade. Sobre cada uma vai fazendo considerações memorialistas e outras mais, guiando o leitor num roteiro de afetos bibliográficos. Vamos à Libri Mundi, em Quito,  e à Les Cahiers de Colette, em Paris, segundo o autor, um xodó de intelectuais. Em Londres,  começa por aquela que considera a mais nobre das livrarias londrinas, a Hatchards, que frequenta desde a adolescência e existe desde 1797. É a livraria da realeza. Há também a John Sandoe, cujo silêncio lhe lembra a sólida biblioteca de uma casa de campo inglesa. E a Daunt Books e a Foyles, esta, a maior da cidade e uma das maiores do mundo. E não esquece dos tradicionais livreiros de Charing Cross Road, lembrando-nos do inesquecível filme “Nunca te vi, sempre te amei”, com Anne Bancroft, Anthony Hopkins e Judi Dench. 


E assim vai o ensaísta, levando o leitor pela mão, sem pressa. Verdadeiramente, é um livro para se ler e reler,  de preferência em lugar silencioso e bonito, para que a atmosfera do entorno e a do livro se misturem, enlevando-nos. Esse é um daqueles livros que se multiplicam em inspirações e motivações para lermos outras obras, tantas são as citadas e comentadas pelo autor, sem nenhum esnobismo. As eventuais transcrições que faz de frases em outras línguas, mormente o inglês, atribuo à sua condição de diplomata poliglota, para quem tudo isso já se tornou algo absolutamente normal. Entretanto, reconheço que seriam bem-vindas notas de rodapé com a tradução. 


Em casa, tenho uma pequena estante reservada aos meus livros de coração e cabeceira. São aqueles aos quais estou sempre retornando, pois nunca se esgotam e jamais me cansam; são os que precisam estar à mão a qualquer hora, como remédios para urgências existenciais; e, finalmente, são os poucos que levaria para uma ilha deserta, perdoem o chavão. Geografia do Tempo, tão logo acabei de ler, foi entronizado nessa estante especial, onde permanecerá, não por muito tempo, sei, à espera de minha próxima – e ansiosa - visitação.              


Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário