
A noite é um manto de ágata sombria
Que pesa sobre os ombros do silêncio,
E a alma, qual nau tênue, se desvia
Por mares onde o Verbo está suspenso.
Na mesa, o papel branco é sepultura
De vozes que o luar não desenterra;
A caneta, de fria arquitetura,
Traça o vazio que em mim se enterra.
Mas eis que a sombra, em sua lei primeira,
Se faz mais luz que a luz do sol vindouro:
No fundo poço da alma passageira,
O próprio escuro é um límpido tesouro
Pois só quem toda a noite se fez inteira
Sabe que a solidão é seu mais puro ouro.
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