João Gomes
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João Gomes

SÃO PRECISO DOIS PARA DANÇAR UM TANGO


Por: | 22/06/2026


   A diplomacia é, antes de mais, a arte de criar condições para que o diálogo seja possível. Não significa abdicar de princípios, ignorar divergências ou renunciar aos interesses nacionais. Significa compreender que, para negociar, é necessário que ambas as partes sintam que estão perante um interlocutor sério e não perante um megafone de ameaças.

     A reunião destinada a iniciar uma discussão sobre um memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão parecia, pelo menos à partida, um pequeno passo no sentido da distensão. Os sinais iniciais eram moderadamente positivos. Havia mediadores presentes, uma linguagem pública relativamente conciliadora e a expectativa de que, mesmo sem grandes avanços, pudesse ser construída uma ponte para futuras conversações.

Mas as pontes não se constroem com explosivos.

    Uma publicação de Trump, repleta de ameaças e de uma retórica agressiva, acabou por produzir o efeito oposto ao desejado. Em poucas dezenas de minutos, a delegação iraniana declarou que não existiam condições para negociar e que não aceitaria fazê-lo sob pressão ou intimidação.

 Pode concordar-se ou discordar-se das posições do Irão em inúmeras matérias. Isso é legítimo e faz parte do debate internacional. Mas também é legítimo reconhecer que um processo de negociação dificilmente começa bem quando uma das partes procura, ainda antes de se sentar à mesa, impor-se através da linguagem da força e do espetáculo político.

     Trump tem demonstrado, ao longo da sua carreira política, uma tendência para transformar a diplomacia numa extensão dos seus comícios e das suas redes sociais. O problema é que a política internacional não funciona segundo as regras do protagonismo pessoal. A necessidade constante de parecer o mais forte, o mais duro e o mais imprevisível pode produzir aplausos entre apoiantes, mas raramente produz confiança entre interlocutores. E sem confiança não há negociação.

  A resposta iraniana, ao anunciar que volta a encerrar o Estreito de Ormuz, recorda ao mundo uma realidade incómoda: as palavras têm consequências. O estreito constitui uma das mais importantes artérias energéticas do planeta. Qualquer perturbação significativa do seu funcionamento repercute-se imediatamente nos preços do petróleo, nos mercados financeiros, nas cadeias de abastecimento e na inflação mundial.

   A Europa, particularmente dependente da estabilidade dos mercados energéticos e já fragilizada por anos de crises sucessivas, será uma das regiões mais penalizadas. Energia mais cara, custos de produção acrescidos, maior pressão inflacionista e um novo clima de incerteza económica são cenários que ninguém deveria desejar.

Por isso, talvez a velha expressão popular contenha mais sabedoria do que aparenta: são precisos dois para dançar o tango.

     Mas também é verdade que alguém tem de ouvir a música, respeitar o parceiro e evitar pisar-lhe os pés antes de a dança começar. Porque na diplomacia, tal como no tango, a arrogância raramente produz harmonia e quase sempre termina com todos a perder.




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