
“Sei que sou imortal”, dizia Walt Whitman. Não com a arrogância dos que se julgam acima dos homens, mas com a serenidade de quem percebeu que a vida é maior do que um único corpo.
Talvez tenham morrido mil vezes.
Morreram quando deixaram para trás a infância, com seus castelos de areia e suas certezas de papel. Morreram quando a primeira desilusão lhes mostrou que o mundo não obedecia aos seus desejos. Morreram quando enterraram amigos, amores, sonhos e ilusões que julgavam eternos.
Cada perda foi uma pequena dissolução.
E, no entanto, continuaram.
Algo neles permaneceu atravessando as ruínas, como uma chama protegida pelas mãos durante a tempestade. O rosto mudou, as ideias mudaram, os cabelos embranqueceram, mas havia uma presença silenciosa observando a passagem das estações. A mesma testemunha que viu nascer a esperança e presenciou sua queda; a mesma que chorou os fracassos e sorriu diante dos reencontros.
Por isso o tempo talvez não seja um rio que corre apenas para a frente. Talvez seja um oceano onde todas as ondas retornam de algum modo à sua origem.
Os homens contam os anos como quem conta moedas. A eternidade, porém, não faz contas. Ela habita os instantes. Está na lembrança de um avô que sobrevive nos gestos do neto. Está numa canção antiga que continua emocionando quem jamais conheceu seu autor. Está numa palavra lançada ao vento e que encontra abrigo em outra alma, décadas depois.
Quem contempla a amplitude do tempo percebe que nada se perde completamente. As folhas caem para alimentar a árvore. As estrelas morrem para iluminar novos mundos. Os seres desaparecem da vista, mas deixam rastros na grande escrita do universo.
E assim seguem eles, os viajantes da Terra, morrendo mil vezes e renascendo outras mil.
Não porque escapem da morte, mas porque a vida, em seu mistério, jamais se limita a uma única passagem pelo convés desta nau chamada existência.Este momento ansioso e pensativo sentado sozinho,
Me parece que há outros homens em outras terras ansiosos e pensativos,
Me parece que posso examinar e vê-los na Alemanha, Itália, França, Espanha,
Ou longe, bem longe, na China, ou na Rússia ou Japão, falando outros dialetos,
E me parece que se pudesse conhecê-los eu ficaria apegado a eles como faço com homens em minhas próprias terras.
Foto: Retrato do poeta americano Walt Whitman (1819-1892), final do século XIX. [Foto: Stock Montage/Getty Images].
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