
Nem todas as ameaças vinham do mar.
Algumas nasciam dentro da própria embarcação.
Durante semanas, meses ou anos, a travessia seguia seu curso aparente. As velas permaneciam abertas. As ordens eram cumpridas. Cada homem ocupava seu lugar.
Mas algo começava a mudar.
Uma insatisfação quase imperceptível.
Um murmúrio.
Um olhar.
Uma discordância.
Nada que parecesse importante.
No início.
Os navegadores sabiam que os motins raramente surgiam de repente. Assim como as tormentas se anunciavam por nuvens distantes, eles começavam muito antes de serem vistos.
Primeiro nos cantos escuros.
Depois nos pequenos grupos.
Por fim, alcançavam o convés.
Também carregamos uma tripulação numerosa.
Em nós há desejos que querem avançar e medos que preferem permanecer ancorados. Há generosidades e egoísmos, esperanças e desenganos, impulsos de construção e vontades de abandono.
Durante longos períodos, convivem em relativo equilíbrio.
Mas nem sempre.
Às vezes uma parte começa a questionar o rumo.
Outra passa a desconfiar das escolhas feitas.
Uma terceira exige aquilo que lhe foi negado.
E, sem que percebamos, instala-se uma agitação nos compartimentos interiores.
Não há gritos.
Ainda não.
Apenas vozes.
Muitas vozes.
Cada uma convencida de possuir a razão.
Por isso os motins são tão antigos quanto as próprias travessias.
Não pertencem apenas às embarcações.
Pertencem à condição humana.
Somos feitos de correntes que seguem em direções diferentes.
Carregamos forças que desejam coisas incompatíveis entre si.
Uma parte busca o horizonte.
Outra sonha com o porto deixado para trás.
Uma quer partir.
Outra quer permanecer.
E ambas habitam o mesmo casco.
Com o tempo aprendemos que vencer o motim não significa silenciar todas as vozes.
Nem entregar o leme à mais ruidosa delas.
Significa continuar navegando sem expulsar a tripulação.
Reconhecendo que cada sentimento, mesmo os mais difíceis, traz notícias de alguma região da alma.
Porque os grandes naufrágios nem sempre acontecem quando o mar se revolta.
Às vezes acontecem quando uma única voz toma conta de toda a embarcação.
E esquece que a travessia sempre pertenceu ao conjunto.
Ao capitão e ao grumete.
À coragem e ao receio.
À esperança e à dúvida.
Afinal, nenhuma nau cruza oceanos carregando apenas um homem.
E nenhum ser humano atravessa a vida carregando apenas um sentimento.
Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário