Alessandra Del`Agnese
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Alessandra Del`Agnese

PESCOÇO ERGUIDO


Por: | 27/06/2026


    Ela existiu há mais de três mil anos, e ainda assim o mundo não consegue desviar os olhos dela.

Nefertiti cujo nome significa “a bela chegou” foi rainha do Egito Antigo no século XIV antes de Cristo, esposa do faraó Amenhotep IV, o mesmo que mais tarde se tornaria Akhenaton, o faraó herege, o que ousou dobrar os joelhos diante de um único deus solar em uma terra de deuses incontáveis. Mas antes que ele reformasse o universo, ela já reinava nele.

     O que se sabe de Nefertiti é fragmentado, como toda verdade antiga: veio de origem incerta, talvez estrangeira, talvez filha de um alto funcionário egípcio. Aparece nos registros com uma presença que não era comum para as mulheres de sua época lado a lado com o faraó em rituais religiosos, em afrescos que a mostram conduzindo carruagens de guerra, esmagando inimigos, intercedendo diante do deus Aton. Em alguns relevos, ela aparece do mesmo tamanho que o marido. O mesmo tamanho. Numa época em que o tamanho das figuras determinava sua importância, isso não era detalhe era declaração.

    E depois, silêncio. Em torno do décimo segundo ano do reinado de Akhenaton, Nefertiti simplesmente desaparece dos registros. Alguns historiadores acreditam que ela morreu. Outros, mais ousados, suspeitam que ela se tornou o próprio faraó sob outro nome, outra máscara, o mesmo pescoço erguido.

Ninguém sabe ao certo.

E talvez seja exatamente isso que a torna imortal.

   Existe uma solidão específica em ser a mulher mais inteligente da sala. Uma solidão que não tem a ver com ausência de companhia, mas com excesso de lucidez. Nefertiti deve ter conhecido essa solidão a de enxergar mais longe do que o protocolo permitia, de segurar o poder com as mãos e precisar fingir que eram apenas joias.

Ela não foi a única.

    Hatshepsut, que governou o Egito quase dois séculos antes dela, teve de se vestir de homem literalmente, com barba postiça e tudo para que seu poder fosse legítimo aos olhos de um mundo que só reconhecia o masculino como autoridade. Construiu templos monumentais, liderou expedições comerciais até a terra de Punt, expandiu o Egito com uma competência que envergonharia qualquer sucessor. E mesmo assim, após sua morte, seu filho mandou apagar seu nome de todos os monumentos. Como se apagando o nome, apagasse o feito.

Não apagou.

  Mais tarde viria Zenóbia, rainha de Palmira, que no século III depois de Cristo desafiou o Império Romano o Império Romano, a coisa mais poderosa do mundo conhecido e por um breve e glorioso momento conquistou o Egito e grande parte do Oriente. Era filósofa, falava várias línguas, montava a cavalo com seus soldados, negociava com reis. Quando Roma finalmente a capturou, o imperador Aureliano ficou tão constrangido de tê-la como prisioneira que a tratou como troféu porque tratar uma mulher como ameaça real teria sido admitir o óbvio.

    E havia Cleópatra, claro não a mulher sedutora que os séculos inventaram para diminuí-la, mas a estrategista fria, a linguista que falava nove idiomas, a única dos ptolomeus que se deu ao trabalho de aprender egípcio para governar seu próprio povo. Cleópatra não seduziu César e Marco Antônio com o corpo seduziu-os com a mente, com o poder, com a visão de um Mediterrâneo governado por uma aliança que ela mesma arquitetou. Quando tudo desmoronou, escolheu a morte antes da humilhação de ser exibida acorrentada nas ruas de Roma.

Até no fim, era ela quem escolhia.

  O busto de Nefertiti, esculpido por Tutmés em torno de 1345 antes de Cristo, é considerado uma das obras de arte mais perfeitas já criadas pela humanidade. Está em Berlim, no Neues Museum, e quem o vê ao vivo dizem para. Simplesmente para. Não por causa da beleza, embora a beleza esteja lá, intacta, absurda para algo de três mil anos. Mas por causa da expressão. Aquele olhar ligeiramente oblíquo, aquela compostura que não é fria é contida. É a expressão de alguém que sabe muito mais do que está dizendo.

Toda mulher conhece essa expressão.

É a expressão usada na reunião quando a ideia dela é ignorada e dois minutos depois o colega repete a mesma coisa e todo mundo aplaude. É a expressão na consulta médica quando o médico diz que é ansiedade antes mesmo de terminar de ouvir os sintomas. É a expressão na mesa de jantar quando ela percebe que está gerenciando as emoções de todos ao redor enquanto as suas ficam na fila de espera.

Nefertiti usava coroa. A mulher moderna usa crachá, avental, terno, jaleco, capacete, microfone e ainda assim aquela expressão não mudou muito em três mil anos.

  O que mudou, no entanto, é que hoje ela pode falar.

Pode publicar, votar, candidatar-se, processar, discordar em público, ocupar o plenário, o laboratório, o comando da aeronave, o bisturi, o tribunal. Pode, em muitos lugares do mundo ainda que não em todos, ainda que não sem custo, existir em tamanho real.

E ainda assim.

Ainda assim o mundo mede a mulher que ergue o pescoço demais. Chama de arrogante o que em homem chama de liderança. Chama de fria o que em homem chama de foco. Chama de ambiciosa como se fosse acusação, não elogio.

  Nefertiti desapareceu dos registros e ninguém sabe por quê. Hatshepsut teve o nome apagado. Zenóbia foi capturada. Cleópatra foi transformada em fantasia.

A história tem um padrão muito pouco sutil.

   Mas eis o que esses séculos não conseguiram fazer: não conseguiram apagar o feito. O busto está lá. O templo está lá. As campanhas militares estão nos papiros. As conquistas resistiram ao silêncio que tentaram impor sobre elas.

    A mulher moderna herda isso não apenas a luta, mas a prova de que sempre houve quem lutasse. De que o pescoço erguido não é novidade nem rebeldia passageira. É postura antiga, testada, comprovada.

Nefertiti não precisou de nenhuma revolução para saber quem era. Soube dentro do tempo em que viveu, com as ferramentas que tinha, com o poder que conseguiu segurar e que foi muito, mesmo que o mundo tratasse de esquecer.

Três mil anos depois, o mundo ainda não conseguiu.

Isso diz tudo.

A rainha não pede licença para entrar. Ela simplesmente entra e o cômodo muda de tamanho.



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