Jornais e portais de notícia da última quinta-feira (25) noticiaram um caso no mínimo escabroso: um pai planejou a morte do próprio filho. Detalhe: um garoto de 8 anos de idade. Motivo torpe: matar para não mais pagar pensão alimentícia à mãe da criança.
O caso aconteceu no Espírito Santo. Foi descoberto graças à cooperação do FBI com a Polícia Federal do Brasil. O pai da criança conversava com o ChatGPT sobre seus planos, que incluiriam atentados a tiros contra policiais, igrejas e escolas, além do assassinato do filho.
A empresa dona do ChatGPT compartilhou a trama com o FBI, a polícia federal norte-americana, que repassou as informações à PF brasileira, que, por sua vez, acionou a Polícia Civil do Espírito Santo, que efetuou a prisão do virtual filicida.
Segundo a apuração da imprensa, o crime não foi consumado porque o matador que o pai criminoso quis contratar recusou-se a fazer o “serviço”, ao descobrir que a vítima seria uma criança.
A notícia chocou a opinião pública, que não consegue conceber como uma pessoa possa atentar contra a vida de um filho. Embora também tenha me chocado, não consigo não lembrar que a sociedade moderna, especialmente a brasileira, vem tratando com violência crescente a sua população mais frágil, mais vulnerável. Nunca se maltratou e se matou tantas mulheres e crianças, neste Brasil!
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Esse caso do Espírito Santo me faz lembrar também as discussões que se estabeleceram nas redes sociais sobre a tentativa de golpe de Estado do 8 de janeiro de 2023.
Grupos de extrema-direita, identificados como bolsonaristas e vinculados ao neofascismo que avança pelo mundo, defendem a invalidade do processo dos golpistas. Afirmam que o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus comparsas foram condenados por crime que “não aconteceu”, que “houve só a intenção, sem desfecho”. E por isso não poderiam sequer terem sido julgados.
Traço, então, as seguintes considerações. Inicialmente, que bom que o golpe não aconteceu! Por outro lado, se a tentativa de golpe tivesse tido êxito, vocês acham que evoluiriam para ações judiciais? Vou mais além: vocês acham que eu teria escrito e publicado este artigo aqui, impunemente?
Para a felicidade da democracia e do povo brasileiro, o golpe planejado e deflagrado fracassou. E para aqueles que dizem que os golpistas foram julgados e condenados por um fato que não existiu – e não aconteceu como tentaram porque as instituições de defesa do Estado Democrático de Direito resistiram e venceram – faço a seguinte comparação…
Eles dizem que o líder dos golpistas, tomando essa figura como exemplo, não poderia ter sido julgado pelo fato de ter planejado, pois não concretizou o crime. Segundo eles, o mesmo raciocínio vale para os demais participantes.
O que será, então, que os cidadãos de direita e da extrema-direita acham do planejamento do assassinato do menino capixaba? Pela lógica golpista, o pai preso por planejar a morte do filho pequeno tambem não poderia, portanto, ser julgado por um ato que não realizou. É isso?
Os fatos apresentam a seguinte semelhança: o planejamento de um assassinato que não chegou a ser realizado, no caso do pai da criança, e o planejamento de um golpe de Estado que não chegou aonde queriam os generais golpistas e seus asseclas são absolutamente similares.
Tentativa de golpe contra a democracia é tão crime quanto a tentativa de homicídio, independentemente do resultado planejado, ansiado e tentado, enfim. No caso do 8 de janeiro, o agravante é o fato indiscutível de ter sido deflagrado.
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Rubens Nóbrega, editor do Blog, colaborou na redação final do artigo
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