João Gomes
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REFLEXÃO- REUNIÃO NATO, O PRINCÍPIO DO FIM DA ATUAL NATO?


Por: | 07/07/2026


    Há reuniões que entram para a História pelas decisões que tomam. E há outras que podem ficar na memória precisamente pelo que revelam sem o dizerem. Na minha opinião, a reunião da NATO de hoje, na Turquia, poderá pertencer à segunda categoria.

  Durante décadas, a NATO assentou numa realidade geopolítica simples: os Estados Unidos suportavam a esmagadora maioria do esforço militar da Aliança e, em troca, mantinham uma presença estratégica permanente na Europa, legitimada pela necessidade de "conter" a antiga URSS. Dizia-se que Europa beneficiaria de um enorme "guarda-chuva" de segurança, enquanto canalizava uma parte significativa dos seus recursos para o desenvolvimento económico e social. Na prática nada disso aconteceu - o que aconteceu foi a submissão militar da Europa aos EUA e a "autorização" tácita para que os EUA fizessem o que lhe apetecesse nas áreas regionais onde a Europa sempre teve influência: Norte de África e Médio Oriente

   Mas o mundo mudou. A URSS desapareceu há mais de três décadas. A Rússia passou a ser uma potência militar relevante, sobretudo pelo seu arsenal nuclear e capacidade convencional, mas já não representa a mesma realidade política, económica e ideológica que caracterizava a Guerra Fria. Ao mesmo tempo, surgiu um novo protagonista que concentra cada vez mais a atenção estratégica de Washington: a China.

    É precisamente aqui que, na minha perspetiva, reside o verdadeiro problema da NATO atual. Os interesses estratégicos dos Estados Unidos deslocam-se gradualmente para o Indo-Pacífico, onde consideram que estará o principal desafio económico, tecnológico e militar das próximas décadas. Não é por acaso que vemos crescer o investimento americano naquela região, reforçar alianças com países como o Japão e a Coreia do Sul e procurar novas formas de contenção da influência chinesa. Se esse movimento continuar, uma pergunta torna-se inevitável: quem sustentará a NATO na Europa?

    A resposta parece simples no papel: os próprios europeus. O problema é que a realidade económica está muito longe dessa simplicidade. A maioria das economias europeias enfrenta elevados níveis de dívida pública, crescimento económico modesto, pressões sociais crescentes, envelhecimento demográfico e dificuldades em financiar simultaneamente o Estado Social, a transição energética, a reindustrialização e um aumento muito significativo da despesa militar.

 Criar uma verdadeira capacidade militar europeia exige muito mais do que anunciar novas metas orçamentais. Exige capacidade industrial, cadeias de produção, matérias-primas, tecnologia, formação de militares, coordenação política e, acima de tudo, vontade comum. E é precisamente essa convergência que continua longe de existir.

   A União Europeia ainda revela profundas diferenças estratégicas entre os seus próprios membros. Uns olham prioritariamente para a Rússia. Outros preocupam-se mais com o Mediterrâneo, África, imigração ou estabilidade económica. Construir uma política de defesa verdadeiramente comum continua a revelar-se muito mais difícil do que produzir comunicados finais consensuais.

   É por isso que a reunião de hoje na Turquia poderá representar, mais do que um reforço da NATO, o início da transformação da organização que conhecemos. Não o fim da NATO enquanto aliança militar - isso seria atirar a toalha ao chão politica e militarmente. Seria a derrota da atual condução europeia no "processo" que envolve o conflito da Ucrânia. Seria a vergonha para Macron, Merz. Starmer (já despedido), Úrsula von der Leyen, António Costa e a Kaja Kallas.

 Mas pode ser talvez o princípio do fim da NATO tal como existiu desde 1949. Uma NATO onde os Estados Unidos eram simultaneamente financiador, comandante operacional e principal garante da segurança europeia.

  Se Trump afirmar que vai reduzir gradualmente o seu envolvimento direto na Europa, não estará apenas a transferir responsabilidades. Estará, na prática, a obrigar os europeus a decidir se possuem capacidade política, económica e estratégica para assumir esse papel. E essa resposta continua tudo menos evidente. Neste contexto, quem poderá sentir primeiro as consequências será precisamente a Ucrânia.

   Mas os discursos finais serão discretos e manterão uma retórica elitista de resiliência. Independentemente do apoio político que continue a existir, será notória uma redução progressiva da capacidade financeira e militar dos países europeus - ou uma menor disponibilidade norte-americana para assumir novos encargos - e isso poderá refletir-se inevitavelmente no volume, na rapidez e na continuidade dos apoios ao conflito do seu proxy Ucrânia. 

  Espero que seja precisamente isso que esta reunião venha a revelar. Não o colapso da NATO. Mas a constatação de que a ordem estratégica construída após a Segunda Guerra Mundial poderá estar a entrar numa nova fase, onde os Estados Unidos olham cada vez mais para o Indo-Pacífico, a Europa é chamada a caminhar pelos seus próprios meios e a NATO procura redefinir a sua identidade num mundo muito diferente daquele para o qual foi criada.

  Se assim for, talvez esta reunião não seja recordada pelas resoluções aprovadas, que farão as noticias entre hoje e amanhã,  mas pelo momento em que começou a tornar-se evidente uma pergunta que até agora poucos ousavam colocar:

  Estaremos perante o princípio do fim da atual NATO? E que NATO se seguirá? Uma NATO europeia que investirá os seus recursos financeiros na indústria dos EUA ou uma "meia-NATO" com os recursos gastos nas diversas forças armadas de cada nação europeia?




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