
Vejam vocês o que é o tempo. Esse monstro que devora as chuteiras de couro cru e as substitui por essas pantufas fluorescentes de polímero espacial. No dia 7 de julho de 1957, o Maracanã não era apenas um estádio; era um templo de concreto armado onde o destino do Brasil resolveu se manifestar na forma de um moleque de 16 anos. Pelé. Um nome que soa como um estalo de dedos, uma síncope rítmica que mudaria a nossa neurose nacional para sempre.
Naquela tarde de Copa Roca, o Brasil perdia para a Argentina. E não era qualquer Argentina. Era a Argentina que carregava em si a semente do que seria, décadas depois, o delírio barroco de Diego Maradona. Mas ali, o inimigo era clássico, tangueiro, com cheiro de grama e suor real. Sylvio Pirillo, num gesto de lucidez quase metafísica, tira Del Vecchio e coloca o menino de Três Corações. E o que acontece? O garoto entra e, aos 32 minutos, crava o seu primeiro gol com a camisa canarinho. Foi o primeiro suspiro de uma divindade que não precisava de assessores de imprensa, nem de “media training” para não dizer nada com nada.
“Pelé não era um ‘produto’. Pelé era uma erupção da natureza, um curto-circuito na lógica do espaço-tempo que fazia a bola se curvar à sua vontade sem precisar de um contrato de patrocínio com uma casa de apostas de Curaçao.”
Hoje, olhamos para os nossos “marajás” dos gramados e sentimos uma melancolia profunda. Os jogadores atuais parecem personagens de um videogame mal programado. Eles não jogam futebol; eles gerenciam carreiras. Eles não suam; eles transpiram marketing. Antes de chutar a bola, eles pensam no ângulo da câmera para o Instagram. É o triunfo do vazio sobre o talento. Em 1957, Pelé não sabia o que era uma “Bet”. O máximo de aposta que se fazia era na esquina, entre um café e um cigarro sem filtro, sobre quem teria a coragem de encarar a zaga argentina no peito.
O profissionalismo de hoje é uma doença. É uma assepsia que matou a alma do jogo. Os jogadores são remunerados como sultões para entregar performances burocráticas, enquanto nos intervalos somos bombardeados por anúncios de “bets” que prometem a riqueza fácil em troca da nossa sanidade. Transformaram o futebol num cassino digital, onde o drible foi substituído pelo algoritmo e a paixão pela liquidez financeira.
Pelé, em 57, era o amadorismo sublime. Era a pureza de quem jogava pelo prazer de humilhar a física. Ele não tinha um “staff” de trinta pessoas cuidando da sua imagem; ele tinha apenas o seu gênio e uma bola que o obedecia como um cão fiel. A comparação com a “era Maradona” e a atualidade é cruel. Maradona era o excesso, a tragédia, a carne viva. O jogador de hoje é um holograma. É um boneco de luxo que, se cair no chão, olha primeiro para o telão para ver se o penteado continua intacto.
Sentimos falta daquela “vadiagem genial”. Falta o suor que manchava a camisa de algodão pesado. Falta o gol que não era comemorado com dancinhas coreografadas por algoritmos do TikTok, mas com o soco no ar um gesto de revolta contra a mediocridade do mundo.
Em 7 de julho de 1957, o Brasil descobriu que podia ser grande. Hoje, o Brasil descobre, a cada rodada, que se tornou apenas um entreposto comercial de jogadores-mercadoria. Que saudade daquele menino de 16 anos que, sem saber, estava nos salvando de nós mesmos, muito antes de o futebol virar esse subproduto de luxo para marajás de chuteiras coloridas e almas cinzentas.
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